Mi Buenos Aires Querido

«…pienso que nunca me he alejado mucho de ese libro; siento que todos mis otros trabajos sólo han sido desarrollo de los temas que en él toqué por primera vez; siento que toda mi vida ha transcurrido volviendo a escribir ese único libro».
Jorge Luis Borges , sobre O Fervor de Buenos Aires

Jorge Luis Borges.

Editado pela Quetzal, o primeiro volume de poesia de Jorge Luis Borges reúne os livros O Fervor de Buenos Aires (1923), Lua Defronte (1925) e Caderno de San Martín (1929). Escritos já após o seu regresso à Argentina em 1921, depois de uma uma passagem pelo velho continente, a poesia de Borges desvela os contornos de uma cidade reencontrada.
Jorge Luis Borges encanta-nos com a elegância, harmonia e  precisão  com que desenha a geografia poética de Buenos Aires. ‘Lo marginal es lo más bello’, diz-nos, e por isso a sua poesia respira as paisagens urbanas não contaminadas pelo verbalismo: os pátio, as casas, os cafés, os arrabaldes, os ritmos da natureza, os lentos entardeceres, o ocaso, a claridade…
Mas a poesia de Borges transcende o quotidiano, revela já as preocupações metafísicas e humanas do escritor argentino. É o princípio de um caminho filosófico que, sem renunciar a Schopenhauer, a Kant, a Berkeley e a Hume, revela já a sua identidade.
Percorrer as paisagens de Buenos Aires pelos versos do poeta que a eternizou, conhecer os seus caminhos esquecidos e as memórias de quem já não os pisa, é também confundir o tempo, esse que não volta nem tropeça como nos diz Francisco Quevedo, virar-lhe as costas e caminhar, como um rio que escorre no sentido da nascente.

Três poemas escolhidos da Obra Poética de Jorge Luis Borges

O Regresso

No fim dos anos do desterro
voltei à casa da minha infância
e contudo é-me estranho o seu espaço.
As minhas mãos tocaram nas árvores
como quem acarinha alguém que dorme
e repeti velhos caminhos
como se recuperasse um verso esquecido
e vi na tarde cada vez mais límpida
a frágil lua nova
abandonada ao amparo sombrio
da palmeira e das suas altas folhas,
como o pássaro ao ninho.

Que multidão de céus
abarcará o pátio entre os seus muros,
que poentes heroicos
militarão no abismo da rua
e quantas quebradiças luas novas
infundirão ternura a este jardim
antes que a casa volte a conhecer-me
e seja outra vez um hábito!

Poema retirado de Fervor de Buenos Aires (1923)

O Sul

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a humidade
essas coisas, acaso, são o poema.

Poema retirado de Fervor de Buenos Aires (1923)

A Minha Vida Inteira

De novo aqui, com os lábios memoráveis, único e semelhante a vós.
Persisti na aproximação da ventura e na intimidade da pena.
Atravessei o mar.
Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou três homens.
Amei uma menina altiva e branca e de uma hispânica seriedade.
Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada imortalidade de poentes.
Saboreei numerosas palavras.
Creio profundamente que isso é tudo e que não verei nem executarei coisas novas.
Creio que as minhas jornadas e as minhas noites se igualam em pobreza e riqueza às de Deus e às de todos os homens.

Poema retirado de Lua Defronte (1925)

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