Hugo Mamede e o Barão

“Chego a este livro depois ter visto a magnífica adaptação para cinema de O Barão, realizado por Edgar Pêra e protagonizado por um assombroso Nuno Melo, num dos melhores papéis em que alguma vez o vi. O fascínio foi tão grande que fui a uma livraria pedir de encomenda o texto original, escrito por Branquinho da Fonseca, nome que ninguém tem e que me soa a fantasma ou a caiador de paredes, sei lá, acontece apenas que o nome passou a estar-me na ponta da língua e quero obrigar todos os meus amigos a lê-lo.

O Barão é um conto sobre um inspector de escolas da instrução primária que se vê escravo do trabalho, não gosta do que faz apesar do prestígio, e ainda por cima é obrigado a viajar por todo o lado quando o que precisa é de estar quieto num sítio. Numa viagem de trabalho a uma aldeia recebe a imensa hospitalidade do Barão, um homem rico exilado na sua grande propriedade, e que será talvez um seu semelhante em solidão, que vive no sedentarismo e monotonia tão cobiçados e que é uma figura de enorme extravagância e palavras autoritárias, quase como um déspota ou um tirano desesperado por alguém com quem conversar. Sem dar por isso o inspector vai-se deixando apoderar pelo Barão durante a noite alucinada que aceita passar em sua companhia, obrigado a ouvir confidências incríveis, às vezes marcadas por um grande sentimentalismo, às vezes por tiradas políticas que roçam a irresponsabilidade. A noite avança e o Barão vai-se assemelhando cada vez mais a uma figura paranormal, quando afirma de maneira enigmática que nunca come, só bebe, quando através da visão perturbada pelo álcool o inspector começa a ver nele uma fantasmagórica criatura que por um bocadinho não se revela um vampiro ou um monstro qualquer de uma história fantástica pronto a derramar sangue. Mas isto nunca mais acontece, e a nossa ansiedade cresce porque parece uma inevitabilidade face a tão estranho e necessitado homem.

A noite dos dois acaba por se transformar numa espécie de pesadelo embrenhado nas névoas do álcool, que a escrita tão límpida e castiça faz o favor de sublinhar. E no fim de contas o Barão pode ser o monstro sanguinário por revelar ou o romântico infantil caído numa extrema solidão. E assim fica o inspector ao serviço do Estado num desnorteamento de não lhe ser permitido usar da razão para avaliar a sua situação, já que não consegue rejeitar a hospitalidade do Barão nem fazer-lhe ver que a sua postura excêntrica o perturba. Ficam os dois reduzidos ao mínimo que há em cada um deles, a sua humanidade possível.

Uma maravilha.”

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Hugo Mamede, 25 anos, contista, revisor, comunicador, flâneur.

Local da fotografia: Cinemateca Portuguesa

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