João Luís Barreto Guimarães

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.  Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006) e A Parte pelo Todo (2009). Mediterrâneo (2016) é o seu terceiro livro de poemas na Quetzal Editores, após a publicação de Poesia Reunida (2011) e de Você Está Aqui (2013).

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para a Formação de Adultos como sugestão de leitura. Depois de Poesia Reunida, publicado em novembro de 2011, a Quetzal apresenta Você está aqui, o oitavo livro de poemas originais de João Luís Barreto Guimarães. Dividido em duas partes - Partidas e Chegadas, sendo a primeira um conjunto de poemas fruto das impressões de uma série de viagens; e a segunda, o regresso à exploração/ observação do quotidiano e dos lugares familiares -, Você está aqui é também o balanço poético e pessoal do homem e do poeta, aos 40 anos, a procura e reafirmação do seu lugar, e do da sua poesia, no mundo. Críticas de imprensa «Em JLBG, o humor é um sentido extra, um assumir do desconcerto do mundo, uma fuga em frente.» Pedro Eiras, Colóquio/Letras «Uma sensibilidade quase epidérmica das ocorrências da vida.» Fernando Guimarães, Jornal de Letras «O nome de JLBG é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa.» António Carlos Cortez, Jornal de Letras «... a verdade é que ele só sabe escrever ‘de dentro da vida’ e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso «A primeira coisa que me parece de assinalar é o espírito de jogo e de ironia (...) Depois, a densa memória cultural que parece habitar esta poesia.» Luís Quintais, Relâmpago «No fundo, João Luís Barreto Guimarães demarca um território onde afirma a sua voz, o seu grupo (nas dedicatórias dos poemas vão-se encontrando vários poetas), a sua estética. O primeiro passo após a reunião da poesia é um passo, seguro, na direção da consolidação do seu caminho pessoal. Daí que você está aqui é, para além de um livro de poesia, um documento de uma geração, sem revolução, mas com marca distintiva, orgulhosa, mas quiçá assombrada com o lugar onde caiu: "(…) É terrível quando cai a cor do vinho tinto / no branco puro / da toalha.» Luís Filipe Cristovão, Revista Literária Sítio «João Luís Barreto Guimarães é um poeta viajado, erudito, não se coibindo de o mostrar naquilo que escreve; porém a fundamental ironia que anima toda a sua poesia passa precisamente por miscigenar essa erudição com os mais banais pormenores da nossa existência, aqui e ali salpicada também com a sua experiência como médico, cirurgião plástico […] Você está aqui é o reencontro com a luz, a luz da viagem, da partida e da chegada e, sempre, a contínua observação do que nos rodeia, imersa numa finíssima ironia, o nosso eterno retorno ao “carrossel dos dias” enquanto aguardamos que seja a nossa mala.» Alexandra Malheiro, Revista Literária Sítio «Ao longo dos anos, João Luís Barreto Guimarães tem vindo a afirmar-se como um dos mais consistentes poetas portugueses e o seu imaginário é uma referência incontornável para quem busca referências da nossa história e cultura. Ao mesmo tempo, há, nas suas palavras uma utilização discreta mas acutilante da ironia, o que torna a sua poesia ainda mais activa. […] Viagens por lugares, cais de olhares que ecoam a memória dos povos, este livro é um encontro com o encantamento das palavras.» Fernando Sobral, Jornal EconómicoMediterrâneoPlano Nacional de Leitura Livro recomendado para a Formação de Adultos como sugestão de leitura. Excerto: vê o pouco que ficou das longas tardes de agosto (pálida sombra de um relógio na pele do último verão) não te percas a chorar para antecipar o inverno é o sítio das nuvens que escolhe os lugares onde cai sol. essa luz não escurece o lado cansado das mãos é estranho revisitar uma praia sem pegadas sentir proteção por saber acompanhar o refrão que cruza as ondas da rádio. as vagas trazem à praia o outono das algas do mar (vão ensaiando maduras a rebentação mais perfeita) cegas na voz do marulho cegas no próprio refrão Críticas de imprensa «[…] o nome de João Luís Barreto Guimarães é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa, principalmente se pensarmos essa evolução em termos de rutura ou continuidade quanto ao que os últimos 30 anos nos ofereceram.» António Carlos Cortez, JL « Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda. Por muito que J.L.B.G., médico de profissão, afirme que a poesia é uma “doença” que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever “de dentro da vida” e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso, Atual

História de uma tarde

uma réstia de tarde ainda por resolver.

Não durará muito é certo (espera-a

o esquecimento) somente o necessário até

a noite baixar. Ainda falta esta luz

antes de fechar a praia

(um átimo para esquecer

recordar

voltar atrás). Já não sobra muito eu sei

(só instantes sem momentos) esse pouco

que divisa memória de

ilusão. Procuro o inefável na espessura da tarde –

se eu não guardar num poema esta hora atravessada

nem ela nem esta tarde alguma

vez existirão.

Mediterrâneo, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal

Still Life

Os livros

abandonados no apartamento de Jan falavam

línguas distintas. Podíamos ir pela estante

(coleccionando fronteiras)

tentando adivinhar quem os teria legado

(quem sabe se em desagravo

pelo rumo da história)

suponho que: pelo desvelo que impele

à partilha. Cruzando o apartamento alugado

tantos anos saudei

nos livros esquecidos a experiência do mundo

(breves rasgões na lombada

testemunhando a viagem)

o olvido por companhia cedo demais

para morrer. Nessa idade em que uma mão (a

minha a

sua: leitor) podia da vida quieta

extrair vida ainda.

Você está aqui, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal

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