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Mundial 2018 – A selecção da Flâneur

Faz dois anos, a Flâneur apresentava a sua primeira convocatória para o Campeonato Europeu, que logo venceu! Agora queremos o Mundial e para atingir tal desiderato (abusarei da linguagem futebolística), reunimos aqueles que de momento nos dão mais garantias de vitória, no plano físico e táctico. Mescla de juventude e experiência, notem que baixamos em 50 anos a média de idade da selecção (123 a anterior), ei-los, os nossos campeões.
 
1 – Heterónimos de Fernando Pessoa, porque baliza preenchida é baliza bem defendida.
 
2 e 3 – Na defesa, entregues às alas, temos Luiz Pacheco e Ângelo de Lima.
 
4 e 5 – No centro da defesa temos Diogo Vaz Pinto, bom jogo de cabeça e forte na marcação individual é também exímio nos lançamentos com e em profundidade. A bola não lhe sai morta dos pés. Ao seu lado está Miguel Torga, o mais internacional futebolista português, jogador duro mas leal, sabe bem os terrenos que pisa.
 
No meio campo apresentamos uma dinâmica linha de 4, basculante, que se desdobra em losango no momento ofensivo (pressing alto) e triângulo no momento defensivo.
 
6 – À direita está Elisabete Marques, jovem talento da academia, rápida, veloz, lesta, nada lenta, antes pelo contrário. Futebolista de sangue frio, é quem assume todas as bolas paradas. De fino recorte técnico, é a rainha das assistências.
 
7 – Andreia C. Faria é quem joga pela esquerda, um pouco acima do lugar onde melhor joga na selecção, no entanto, jogadora polivalente, pode também fazer o lado direito e até os flancos. Repentista e perfeita no drible em progressão, é a chamada falsa lenta. Inteligente a ocupar o espaço vazio e no jogo entre linhas, tem perfume a nossa craque.
 
8 – No miolo, a sagacidade e a visão de jogo de Manuel António Pina. É o cérebro da equipa, quem pauta todo o ritmo de jogo.
 
9 – Gonçalo M. Tavares, o menino que veio do bairro para os relvados. Forte nas segundas bolas e a rodar sobre si mesmo, é o génio dos passes de ruptura.
 
10 e 11 – O ataque é formado por Daniel Jonas, 1 metro e 97 de golo, nada tosco e com caracóis. Ao seu lado, forte a jogar de costas para a baliza e a provocar o desgaste dos defesas contrários, temos Rosa Alice Branco, também de caracóis. A fazer lembrar as nossas lendas (Cadete, Paulo Futre, Chalana, entre outros), esta possante dupla avançada sabe que ao futebolista não lhe basta ser, tem de parecer, e por isso , não descura nunca o visual na hora de festejar.
 
O Mister, o nosso “special one”, é Pedro Eiras. Com um trajecto vitorioso em todos os escalões de formação e um profundo conhecimento das principais academias do mundo, rapidamente se afirmou como líder da nossa selecção, revolucionando toda a metodologia do treino e do jogo. Rigoroso e disciplinador, gosta de jogar bonito. Privilegia a nota artística mas não vai em cantatas, a não ser as BWV, claro.
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A velha senhora de Borges

«Já não sonho senão com mortos», foram das últimas palavras que lhe ouviram dizer. Nunca foi estúpida, mas não havia gozado, que eu saiba, de prazeres intelectuais: ficaram-lhe os da memória e, depois, o esquecimento. Sempre foi generosa. Recordo os seus tranquilos olhos claros e o seu sorriso. Quem sabe o tumulto das paixões, agora perdidas que arderam dentro dessa velha mulher agraciada. Muito sensível a plantas, cuja modesta vida silenciosa era afinal a sua vida, cultivava no seu quarto umas begónias e mexia nas folhas que não via. Até 1929, ano em que se fechou no seu permanente dormitar, contava acontecimentos históricos sempre com as mesmas palavras e pela mesma ordem, como se fosse o pai-nosso, e suspeitei de que já não correspondiam a imagens. Tanto lhe dava comer uma coisa como outra. Em suma: era feliz.
Dormir, como se sabe, é o mais secreto dos nossos actos. Dedicamos-lhe uma terça parte da vida e não o compreendemos. Para uns não passa de um mero eclipse na nossa vigília, para outros é um estado mais complexo que abrange, ao mesmo tempo, o ontem, o hoje e o amanhã. Para outros ainda, é uma não interrompida série de sonhos. Dizer que a senhora de Jáuregui passou dez anos num caos tranquilo é porventura um erro. Cada instante desses dez anos pode ter sido um puro presente sem antes nem depois. Não nos maravilhemos demasiado desse presente que contamos por dias e por noites e pelos centenares de folhas de muitos calendários e por ansiedades e factos: é o que atravessamos cada manhã antes de acordarmos e cada noite antes do sonho. Todos os dias somos duas vezes aquela velha senhora.

 

Jorge Luis Borges, in Relatório de Brodie
Tradução de António Alçada Baptista
Quetzal Editores

Pintura: Begonia in a Pot, Odilon Redon
Pintura: Interior In Strandgade, Hammershøi

Relatório de Brodie

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Furor e Mistério, René Char

Tinha onze ou doze anos, quando aquilo a que chamava o grandíssimo relâmpago se abateu sobre mim pela primeira vez; tudo o resto deixou de ter importância. O dia não ilumina, só existem a noite e a claridade, mas essa claridade vem da noite, é o grandíssimo relâmpago. Só cintila de tempos a tempos, um número restrito de vezes durante uma vida, mas em cada relâmpago vislumbramos algo mais do que aqueles que só vêem durante o dia. Mesmo que depois o relâmpago ainda torne mais obscura a obscuridade que lhe sucede.

René Char

Basta de Escavar

Basta de escavar, de dilapidar a nossa mais próxima parte.
O pior está em todos nós, caçador, no nosso flanco. Vós que aqui não sois mais do que uma pá levantada pelo tempo, voltai-vos sobre o meu amor, que soluça a meu lado, e despedaçai-nos, peço-vos, fazei-me morrer de uma vez por todas.

René Char, in Furor e Mistério

Um Pássaro…

Um pássaro canta sobre um fio
Essa vida simples, à flor da terra.
Com isso se alegra o nosso Inferno.

Depois o vento começa a sofrer
E as estrelas dão-se conta.

Ó loucas, por percorrerem
Uma tão profunda fatalidade!

René Char, in Furor e Mistério

 

Pintura: Reflexão, de Odilon Redon

Furor e Mistério

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Bach – Pedro Eiras

É noite, e eu ando contigo às escuras no corredor. Faremos muitas vezes este caminho, até adormeceres. Os meus olhos habituam-se, e um pouco de luz atrás das portadas revela a forma das estantes. Vejo o suficiente para não ir contra as coisas; e de tanto ir e vir no corredor já sei quantos passos cabem entre as paredes. Saberia fazer este caminho mesmo de olhos fechados.
Seguro-te contra mim. Sinto o teu sono a chegar: no ritmo da tua respiração, no modo como vais deixando cair a cara sobre o meu ombro. Aos poucos, ao ritmo dos meus passos, na penumbra da casa, sossegas. E eu sinto o cheiro da tua pele, do teu cabelo, o calor do teu corpo no escuro. Conforme os teus braços deixam de me agarrar, seguro-te com mais força nas minhas mãos.
[…] Mas murmuro sempre, continuo a murmurar para ti, sempre, Mache dich, mein Herze, rein…, como se estas notas de música pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos. Uma breve melodia, no meio da noite, tudo o que temos, tudo o que existe em nós.
 
Pedro Eiras, in Bach

Pintura: Emanuel de Witte, Interior com mulher tocando virginal

Bach

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Jacquemard e Júlia – René Char

Outrora, no momento em que as estradas se harmonizavam no seu declínio, a erva erguia ternamente as suas hastes e alumiava as suas claridades. Os cavaleiros diurnos nasciam ao olhar do seu amor e os castelos das bem-amadas contavam tantas janelas como no seio do abismo as ténues tempestades.
Outrora a erva conhecia mil insígnias que não se contrariavam. Era a providência dos rostos banhados de lágrimas. Encantava os animais e abrigava o erro. E era tão extensa como o céu que venceu o medo do tempo e reduziu a dor.
Outrora a erva era bondosa para os loucos e hostil para o carrasco, ligava-se em renovado amor ao limiar de sempre, inventava jogos palpitantes de asas no sorriso (tão perdoados quão fugitivos jogos…), não era dura para os que tendo perdido o caminho o desejassem perdido para sempre.
Outrora a erva tinha estabelecido que a noite vale menos que o seu poder, que as nascentes não complicam por capricho o seu percurso, que o grão ajoelhado está já a meio caminho do bico do pássaro. Outrora terra e céu odiavam-se, mas terra e céu viviam.
A inextinguível secura escoa-se. O homem é um estrangeiro para a aurora. No entanto, a caminho da vida que não pode ser ainda imaginada, há vontades que fremem, murmúrios que vão afrontar-se e crianças sãs e salvas – que descobrem.

Pintura: Narcisse-Virgile Diaz de la Peña

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Poemas Escolhidos, William Wordsworth

A Pequena Celidónia

Há uma flor, a humilde celidónia,
Que encolhe, como tantas, se sujeita
À chuva, ao frio; mas, sem cerimónia,
Se o sol reluz, eis dela a luz à espreita!

Assim que chove em salvas a saraiva
E incide contra árvores e pastos,
Amiúde a vejo, a salvo dessa raiva,
Em si fechada, um Ser de modos castos.

Um dia de invernia dei por ela;
Reconheci-a, embora alterada,
Sozinha, oferecendo-se à procela,
À chuva e à mercê da trovoada.

Parei, e isto disse intimamente,
«Não é que escolha o frio ou o chuvisco:
Nem é por sua opção, por ser valente,
Mas mera condição de quem é prisco.

O sol não a acalenta, nem o orvalho;
Não consegue evitar o abatimento;
Os membros presos, murcha, o tom já falho» –
Sorri, tal qual o meu humor: cinzento.

De Pródiga à pobreza da Reforma –
Encara a tua sorte, mísero Homem!
Que o tempo te subtraia à jovem forma
Somente o que dispense o belo Jovem!

Poemas Escolhidos, de William Wordsworth
selecção, tradução, introdução e notas de Daniel Jonas
Edição: Assírio & Alvim

Poemas Escolhidos

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A pequena amiga de Robert Walser

Numa cama está deitada uma jovem rapariga, morta. Devo confessar que é raro encontrar um quadro que me toque tão profundamente. Três a quatro alunas, companheiras de escola da falecida, estão perante o mistério, que com a sua sublime grandeza atinge as almas florescentes com um sopro frio. Estão angustiadas; não se entendem nos seus exercícios e jogos: os pais, as casas, os campos, a igreja. No entanto, decerto irão entender tudo isto no dia seguinte ou até na próxima hora, retomando as suas actividades habituais. Mas agora, despedindo-se do corpo da sua amiga, tudo o que lhes era familiar torna-se estranho, a estranheza, por outro lado, torna-se familiar. Morrer é tão grandioso e, ao mesmo tempo, tão infinitamente insignificante. É como outra coisa qualquer, como colher cerejas na época em que amadurecem ou como andar de trenó no Inverno ou como beber café. Têm os lenços à frente dos rostos, mas nenhuma chora o choro belo e macio de uma dor natural. Um enorme espanto apoderou-se delas, misturado com o esforço de entender o que não pode ser entendido, impedindo-as de chorar naturalmente. Ó, este espanto das raparigas é alto e grande como uma cumeeira, como montanhas aladas. Os vestidinhos que trazem parecem-lhes ter sido levados para bem longe. Mas elas irão senti-los de novo, a sua necessidade, o seu encanto junto à pele. Agora é como se não tivessem pele. O quarto, outrora aconchegante e animado, está agora silencioso, lúgubre. Também o quarto está morto, o relógio na parede, os móveis, contudo os objectos irão renascer da falta de sentido, de significado, readquirindo um sentido, a balança irá parecer às crianças, pacientes e bem-educadas, suportando esta hora de frieza violentamente silenciosa, de novo agradável e simbólica. A esperança ferida reencontra sempre o rumo certo.

Robert Walser, in Histórias de Imagens
Edições Cotovia

Pintura: Albert Anker, A Pequena Amiga (1862)

Histórias de Imagens

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Aforismos, Karl Kraus

“Temos de escrever sempre de tal forma, como se fosse a primeira e a última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida e tão bem como se fosse uma estreia.

Eu não domino a língua, mas a língua domina-me perfeitamente. Ela não é servidora dos meus pensamentos. Vivo numa simbiose com ela de onde recebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que quiser. Eu obedeço-lhe incondicionalmente. É a partir da palavra que o jovem pensamento salta ao meu encontro, formando posteriormente a língua que o criou. Tal graça de prolificidade em matéria de pensamentos faz uma pessoa cair de joelhos e transforma todo o dispêndio de um cuidado inquieto em obrigação. A língua é rainha e senhora dos pensamentos, e a quem inverter tal relação, ela far-se-á útil em casa, mas sem lhe franquear o seu seio.

A palavra mais antiga deve ser estranha quando vista de perto, recém-nascida, e deve levantar dúvidas quanto à sua condição de viva. Nesse caso, vive. Ouvimos o bater do coração da língua.”

“Arranho frequentemente a mão com a pena, e só aí fico com a certeza de que vivi o que está escrito.”

Karl Kraus, in Aforismos – http://www.flaneur.pt/produto/aforismos/

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A Ordem do Dia

Mas para se compreender melhor o que é a reunião de 20 de fevereiro, para captar bem o seu carácter de eternidade, é preciso passar a chamar estes homens pelo seu nome. Já não são Günther Quandt, Wilhelm von Opel, Gustav Krupp, August von Finck a estar ali, nesse fim de tarde de 20 de fevereiro de 1933, no palacete do presidente do Reichstag; são outros nomes que é preciso mencionar. Porque Günther Quandt é um criptónimo, dissimula algo bem diferente do homemzarrão que suja os bigodes e se mantém gentilmente no seu lugar, em volta da mesa de honra. Por detrás dele, mesmo atrás, está uma silhueta bem mais imponente, uma sombra tutelar, tão fria e impenetrável como uma estátua de pedra. Sim, sobrepujando poderosamente, feroz, anónima, a figura de Quandt, e conferindo-lhe essa rigidez de máscara, mas de uma máscara que se colasse ao rosto melhor do que a própria pele, adivinha-se acima dele: Accumulatoren-Fabrick AG, a futura Varta, que nós conhecemos, uma vez que as pessoas morais têm os seus avatares, tal como as divindades antigas assumiam diversas formas e, ao longo do tempo, incorporavam outros deuses.
É pois esse o nome autêntico de Quandt, o seu nome de demiurgo, visto que ele, Günther, não passa de um montinho de carne e osso, como o leitor e eu, e uma vez que, depois dele, os filhos e os filhos dos filhos hão de por sua vez ocupar o trono. Mas o trono, esse, permanece, enquanto o montinho de carne e osso apodrece na terra. Assim, os vinte e quatro não se chamam nem Rosterg, nem Heubel, como os seus cartões de identidade nos fazem crer. Chamam-se BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken. Por estes nomes, conhecemo-los. Conhecemo-los até muito bem. Estão aí, no meio de nós. São os nossos carros, as nossas máquinas de lavar, os nossos produtos de limpeza, os nossos despertadores, o seguro da casa, a pilha do relógio. Estão aí, em toda a parte, sob a forma de coisas. O nosso quotidiano pertence-lhes. Cuidam de nós, vestem-nos, iluminam-nos, transportam-nos pelas estradas do mundo, embalam-nos. E os vinte e quatro homens presentes no palacete do presidente do Reichstag, nesse 20 de fevereiro, são apenas os seus mandatários, o clero da grande indústria; os sacerdotes de Ptah. Mantêm-se aí impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular às portas do inferno.

Éric Vuillard, in A Ordem do Dia
Edição Dom Quixote

Pintura: Potentats d’ Imfirmités – Louis Soutter

A Ordem do Dia

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A infância de Bergman

Apesar de tudo, eu penso nos meu anos de garoto com prazer e curiosidade. Nunca me faltou alimento nem para a fantasia nem para os sentidos, e não me lembro de me ter sentido aborrecido alguma vez. Pelo contrário, os meus dias e as minhas horas estavam sempre repletos de coisas que achava interessantes, cenários inesperados, instantes mágicos. Ainda hoje consigo percorrer a paisagem da minha infância e sentir de novo todo aquele passado de luzes, aromas, pessoas, quartos, instantes, inflexões de voz, objectos. É raro que sejam episódios dignos de serem contados. Essas recordações são comparáveis a filmes curtos ou longos, feitos ao acaso e sem objectivo.
A prerrogativa da infância é podermos mover-nos entre a magia da vida e as papas de aveia que nos dão, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites. (…) Era-me difícil distinguir entre o que era imaginado e o que era real. Se me esforçava, conseguia fazer com que a realidade se mantivesse dentro dos limites do real, mas o que havia eu de fazer dos fantasmas e das almas penadas? E as histórias que me contavam, as sagas? Seriam reais? E Deus e os anjos? E Jesus Cristo, Adão e Eva, o Dilúvio? O que se passara afinal entre Abraão e Isaac? Era verdade que ele pensou cortar o pescoço ao filho? É que eu olhava excitado para uma água-forte de Doré, identificava-me com Isaac, e aquilo para mim tornava-se realidade: o meu pai também pensava em cortar-me o pescoço, um dia! E que será de ti, Ingmar, se o anjo salvador chegar tarde? Bem, terão de chorar a minha morte, pensava eu. Ficaria banhado em sangue com um sorriso pálido no meu rosto. Era a realidade.

Ingmar Bergman, in Lanterna Mágica