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Poemas Escolhidos, William Wordsworth

A Pequena Celidónia

Há uma flor, a humilde celidónia,
Que encolhe, como tantas, se sujeita
À chuva, ao frio; mas, sem cerimónia,
Se o sol reluz, eis dela a luz à espreita!

Assim que chove em salvas a saraiva
E incide contra árvores e pastos,
Amiúde a vejo, a salvo dessa raiva,
Em si fechada, um Ser de modos castos.

Um dia de invernia dei por ela;
Reconheci-a, embora alterada,
Sozinha, oferecendo-se à procela,
À chuva e à mercê da trovoada.

Parei, e isto disse intimamente,
«Não é que escolha o frio ou o chuvisco:
Nem é por sua opção, por ser valente,
Mas mera condição de quem é prisco.

O sol não a acalenta, nem o orvalho;
Não consegue evitar o abatimento;
Os membros presos, murcha, o tom já falho» –
Sorri, tal qual o meu humor: cinzento.

De Pródiga à pobreza da Reforma –
Encara a tua sorte, mísero Homem!
Que o tempo te subtraia à jovem forma
Somente o que dispense o belo Jovem!

Poemas Escolhidos, de William Wordsworth
selecção, tradução, introdução e notas de Daniel Jonas
Edição: Assírio & Alvim

Poemas Escolhidos

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O Fulgor do Relâmpago, Rosillo

O Fulgor do Relâmpago

Há coisas que a vida te dá quando já mal
podias esperá-las, e sua luz
maravilhosa, elementar, puríssima,
faz-te feliz de súbito. E desgraçado,
pois compreendes que já não será teu
esse milagre agora e que não deves
às cegas entregar-te ao que era
próprio talvez de outro momento teu,
de um momento anterior, quando ainda tinhas
forças para ser livre.
Mas deixa-te levar e vive essa beleza
com coragem, sem medo. Para quê pensar
no que te convém. É fugaz a ventura.
Não a desprezes. Agarra-a. E esgota
o fulgor do relâmpago.
Depois,
tempo terás para continuar morrendo.

Eloy Sánchez Rosillo, As Coisas como Foram, Assírio & Alvim – http://www.flaneur.pt/produto/as-coisas-como-foram/

Pintura: The Angel Standing in the Sun, Turner

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José Oliveira

Vida e Morte de Uma Sombra

“Olhai, não tenho rosto, o que exibo é a cara do instante”
Edmond Jabés

Sombra de ninguém exilada nos meus pulmões,
sombra antiga dos pulmões
de que mapa ou desvairado país foges?
Dói a claridade, dói a crosta inicial desta sílaba,
mas dói sobretudo a vasta ausência,
inclinada sobre o meu nome.

Dói alguém no centro da idade,
dói a ignorância, a luz que falta, tudo o que treme,
o meu nome antes da pobreza,
doem as clareiras que os deuses abriram no meu ventre,
o salitre das crenças,
espécie de tristeza no canto dos relâmpagos,
ofegante respiração do Inverno.

Mas a sombra é um lugar corajoso
onde os dias terminam
atrás da luz ou atrás de mim
enquanto durmo por pudor ou tédio.
Tudo está intacto enquanto envelheço –
a humidade, a memória, rara água nas mãos –
tudo é difícil dentro da sombra
no silêncio tardio das orações, no frio,
na doçura negra.

Cinza, pólen, poeira: o que resta do mundo dos vivos.

José Oliveira, in Livro de Obra

Pintura: James Abbot McNeill Whistler, Arrangement in Grey and Black No.1 (1871), conhecido como Whistler’s Mother, Musée d’Orsay, Paris

Livro de Obra

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Andrée Chédid

Andrée Chedid (20 de março de 1920 – 6 de fevereiro de 2011) foi uma poeta e romancista francesa de origem egípcia.

 

Terra e Poesia

A poesia não é evanescência, mas sim presença.

O vocábulo fascina o poeta. Como, através dele, descobrir a palavra? Lugar onde, libertando-se, a palavra descobre o seu pleno estio.

O poema permanecerá livre. Nunca encerraremos o seu destino no nosso.

Não damos nada ao poema que ele não nos devolva centuplicado. Julgamos construí-lo, e é ele que, secretamente, nos constrói.

Em busca de um equilíbrio para o perder de novo, o poeta não escapa à sua própria música.
Os poemas afastam-se, mas o grito permanece o mesmo.

Nunca abordaremos o jardim sem trevas. Nunca atingiremos a madrugada contínua. Melhor assim. Que seria de nós sem a sede? Sem o frágil linho do amor?

Não há saídas sem armadilhas. Cada caminho fica por decifrar. Do singular ao universal, do quotidiano ao durável, é necessário restabelecer – pedra a pedra – a passagem.

A poesia é natural. Ela é a água da nossa segunda sede.

Recusando escolher uma margem com exclusão da outra, uma das provas do poeta – mesmo que a sua água e o seu sol lhe não bastem – deveria ser essa ponte a construir.

Para ser, a poesia não espera senão o nosso olhar.

 

Voz Consonante, Traduções de Poesia de António Ramos Rosa, Edições Quasi

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Rui Knopfli

Habitante das escassas memórias ou testemunhos daqueles que com ele conviveram, do retrato tremido que nos chega de Rui Knopfli percebe-se essa “figura prematuramente frágil”, onde a ira se apaziguou pelo desgaste. É difícil dizer exactamente onde, mas o mesmo banco de pedra que um dia ergueu nos versos, ainda lá está, sujeito à vaga inclinação das lembranças. E nele o poeta, “pendurado num eterno cigarro”, fazendo do castigo um gosto, ainda que lhe pese a própria voz. E se o acento lírico não cedeu à ferrugem, em consequência da sua “linguagem castigada com desvelo de amante”, transparece dolorosamente “uma mágoa de naufrágios, e derrotas cruéis, que impõem o exílio do espaço habitado e bem amado”.

Diogo Vaz Pinto
https://ionline.sapo.pt/574191

DESPEDIDA

Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo de
silêncio e vazio estéril.
Os próprios sonhos se encheram de neblinas
e o tempo os amarelece.
Outono decisivo de folhas secas
e bancos abandonados de cimento frio
onde não cantam aves
e o vento desce em brandos rodopios.
Apenas uma vaga angústia presente,
uma saudade sem recomeços,
a lembrança tépida a gelar como
veios de mármore.
Tudo entre nós foi dito,
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o crepitar leve das folhas
e, sem ressentimentos, dizemos adeus.

Rui Knopfli, in Uso Particular, Do Lado Esquerdo – http://www.flaneur.pt/produto/uso-particular/

FIM DE TARDE NO CAFÉ

Na tarde cor de azebre
falávamos de coisas amargas.
Ali, na mesa triste do café
com moscas adejando
sobre restos de açúcar
e um copo de água
morna de esquecida,
falávamos da amargura das coisas,
entre rostos graníticos e enxovalhados,
entre estranhos e estranhos
de estranhos e os que,
nada tendo de estranhos,
cuidam de cuidar
o que se passa entre estranhos.
Na tarde comprida e silenciosa
tecíamos gestos inúteis
e palavras entre dentes,
mergulhados na paisagem geométrica
do café. Do café tão cheio de gente
e fumo e moscas e caras tristes
e afinal tão profundamente,
tão desesperadamente vazio.

Rui Knopfli, in Uso Particular, Do Lado Esquerdo – http://www.flaneur.pt/produto/uso-particular/
O CAMPO

Saio para o campo. O campo
aqui não é o campo, mas a savana
eriçada de micaias e capim
feio e desigual. Habitantes
do seu mundo, os negros ignoram-me,
empenhados em suas tarefas quotidianas.
Olho para as coisas abandonadas,
latas escuras de ferrugem, lonas
pardas de pneus, ferros
retorcidos sem jeito. Entre isso
o capim espreita, descolorido, espigado
e hirsuto. Nada me sugere a face
aveludada de uma paisagem pastoril,
rosto tranquilo de criança sonhando.
Mas eles estão no seu mundo,
e eu passeio no campo.

Rui Knopfli, in Uso Particular, Do Lado Esquerdo – http://www.flaneur.pt/produto/uso-particular/

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Carl Sandburg

A Grade

Agora, a mansão à beira do lago já estáCarl_Sandburg
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.

Carl Sandburg
Tradução de Alexandre O’Neill

Rápido

Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.

Carl Sandburg
Tradução de Alexandre O’Neill

Sopa

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
Com uma colher.

Carl Sandburg
Tradução de Alexandre O’Neill

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Billy Collins

Poeta americano, Billy Collins nasceu em Manhattan em 1941 e cresceu em Queens. Professor, consultor e mentor de várias revistas, promotor de workshops de poesia, foi laureado, entre 2001 e 2003, como Joseph Brodsky ou Stanley Kunitz; escreveria aliás, em 2002, um magnífico poema, incluído nesta antologia, Os Nomes, homenagem às vítimas dos ataques do 11 de Setembro.

 

PoesiaAmor Universal

Chamam-lhe um campo onde os animais
que foram esquecidos pela Arca
vêm pastar sob as nuvens da noite.

Ou uma cisterna, onde a chuva que caiu
antes da história escorre ao longo de uma placa de cimento.

Qualquer que seja a forma de o ver
este não é um lugar para montar
o cavalete de três pernas do realismo

ou fazer o leitor subir
as muitas cercas de um enredo.

Deixo o romancista corpulento
com a sua máquina de escrever barulhenta
descrever a cidade onde nasceu Francine,

como Albert leu o jornal no comboio,
como as cortinas sopravam no quarto.

Deixa a dramaturga com o seu casaco rasgado
e um cão enroscado no tapete
levar as personagens

dos bastidores para o palco
para enfrentarem a escuridão de muitos olhos da sala.

poesia não é lugar para isso.
Já temos muito para fazer
ao protestar contra o preço do tabaco,

passar a concha da sopa a pingar,
e cantar canções a um pássaro numa gaiola.

Estamos ocupados a não fazer nada –
e tudo o que precisamos para isso é de uma tarde,
um barco a remos sob um céu azul,

e talvez um homem a pescar de uma ponte de pedra,
ou, melhor ainda, ninguém nessa mesma ponte.

Amor Universal, Billy Collins, Averno
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

Hoje

Se alguma vez houve um dia de primavera tão perfeito,
tão animado por uma brisa morna intermitente

que te fez querer abrir
todas as janelas de casa

e destrancar a porta da gaiola do canário,
na verdade, arrancar a pequena porta do seu batente,

um dia em que os frescos caminhos de tijoleira
e o jardim repleto de túlipas

pareciam tão incrustados na luz solar
que até te apeteceu dar com

um martelo no pisa-papéis de vidro
que está na mesa ao fundo da sala de estar,

libertando os habitantes
da sua casinha coberta de neve

para que assim pudessem sair,
de mãos dadas e franzindo os olhos

ao ver esta abóboda maior de azul e branco,
então, hoje é mesmo esse tipo de dia.

Amor Universal, Billy Collins, Averno

trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

 

Rebanho

“Calcula-se que para cada exemplar da Bíblia
de Gutenberg… foram necessárias as peles de 300 ovelhas”
– de um artigo sobre imprensa

 

Parece que as estou a ver apertadas no curral
por trás do edifício de pedra
onde a prensa funciona,

todas elas se ajeitando
para encontrar um pouco de espaço
e tão parecidas umas com as outras

que seria quase impossível
contá-las,
e não há forma de dizer

qual delas irá levar a notícia
de que o Senhor é um pastor,
uma das poucas coisas que elas já sabem.

Billy Collins, Amor Universal,

trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

 

Adágio
 
À noite, quando já é tarde e os ramos
batem contra as janelas,
podes pensar que o amor é apenas uma questão
 
de passar do cavalo próprio
para o burro de outra pessoa,
mas é um pouco mais complicado do que isso.
 
É mais como trocar os dois pássaros
que podem estar escondidos naquele arbusto
pelo que não tens na mão.
 
Um homem sábio disse uma vez que o amor
era como forçar um cavalo a beber
mas depois toda a gente deixou de pensar nele como sábio.
 
Sejamos claros sobre isto.
O amor não é tão simples como acordar
virado do avesso e envergando as roupas do imperador.
 
Não, é mais parecido à maneira como a caneta
se sente depois de ter derrotado a espada.
É um pouco como o tostão poupado ou a prevenção em vez do remédio
 
Tu olhas para mim através do halo da última vela
e dizes que o amor é um mal que nunca
traz a bonança, uma tempestade que não sopra nada de bom,
 
mas eu estou aqui para te lembrar,
enquanto as nossas sombras tremem nas paredes,
que o amor é o pássaro madrugador que mais vale chegar tarde do que nunca.
 
Amor Universal, de Billy Collins
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
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João Luís Barreto Guimarães

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.  Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006) e A Parte pelo Todo (2009). Mediterrâneo (2016) é o seu terceiro livro de poemas na Quetzal Editores, após a publicação de Poesia Reunida (2011) e de Você Está Aqui (2013).

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para a Formação de Adultos como sugestão de leitura. Depois de Poesia Reunida, publicado em novembro de 2011, a Quetzal apresenta Você está aqui, o oitavo livro de poemas originais de João Luís Barreto Guimarães. Dividido em duas partes - Partidas e Chegadas, sendo a primeira um conjunto de poemas fruto das impressões de uma série de viagens; e a segunda, o regresso à exploração/ observação do quotidiano e dos lugares familiares -, Você está aqui é também o balanço poético e pessoal do homem e do poeta, aos 40 anos, a procura e reafirmação do seu lugar, e do da sua poesia, no mundo. Críticas de imprensa «Em JLBG, o humor é um sentido extra, um assumir do desconcerto do mundo, uma fuga em frente.» Pedro Eiras, Colóquio/Letras «Uma sensibilidade quase epidérmica das ocorrências da vida.» Fernando Guimarães, Jornal de Letras «O nome de JLBG é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa.» António Carlos Cortez, Jornal de Letras «... a verdade é que ele só sabe escrever ‘de dentro da vida’ e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso «A primeira coisa que me parece de assinalar é o espírito de jogo e de ironia (...) Depois, a densa memória cultural que parece habitar esta poesia.» Luís Quintais, Relâmpago «No fundo, João Luís Barreto Guimarães demarca um território onde afirma a sua voz, o seu grupo (nas dedicatórias dos poemas vão-se encontrando vários poetas), a sua estética. O primeiro passo após a reunião da poesia é um passo, seguro, na direção da consolidação do seu caminho pessoal. Daí que você está aqui é, para além de um livro de poesia, um documento de uma geração, sem revolução, mas com marca distintiva, orgulhosa, mas quiçá assombrada com o lugar onde caiu: "(…) É terrível quando cai a cor do vinho tinto / no branco puro / da toalha.» Luís Filipe Cristovão, Revista Literária Sítio «João Luís Barreto Guimarães é um poeta viajado, erudito, não se coibindo de o mostrar naquilo que escreve; porém a fundamental ironia que anima toda a sua poesia passa precisamente por miscigenar essa erudição com os mais banais pormenores da nossa existência, aqui e ali salpicada também com a sua experiência como médico, cirurgião plástico […] Você está aqui é o reencontro com a luz, a luz da viagem, da partida e da chegada e, sempre, a contínua observação do que nos rodeia, imersa numa finíssima ironia, o nosso eterno retorno ao “carrossel dos dias” enquanto aguardamos que seja a nossa mala.» Alexandra Malheiro, Revista Literária Sítio «Ao longo dos anos, João Luís Barreto Guimarães tem vindo a afirmar-se como um dos mais consistentes poetas portugueses e o seu imaginário é uma referência incontornável para quem busca referências da nossa história e cultura. Ao mesmo tempo, há, nas suas palavras uma utilização discreta mas acutilante da ironia, o que torna a sua poesia ainda mais activa. […] Viagens por lugares, cais de olhares que ecoam a memória dos povos, este livro é um encontro com o encantamento das palavras.» Fernando Sobral, Jornal EconómicoMediterrâneoPlano Nacional de Leitura Livro recomendado para a Formação de Adultos como sugestão de leitura. Excerto: vê o pouco que ficou das longas tardes de agosto (pálida sombra de um relógio na pele do último verão) não te percas a chorar para antecipar o inverno é o sítio das nuvens que escolhe os lugares onde cai sol. essa luz não escurece o lado cansado das mãos é estranho revisitar uma praia sem pegadas sentir proteção por saber acompanhar o refrão que cruza as ondas da rádio. as vagas trazem à praia o outono das algas do mar (vão ensaiando maduras a rebentação mais perfeita) cegas na voz do marulho cegas no próprio refrão Críticas de imprensa «[…] o nome de João Luís Barreto Guimarães é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa, principalmente se pensarmos essa evolução em termos de rutura ou continuidade quanto ao que os últimos 30 anos nos ofereceram.» António Carlos Cortez, JL « Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda. Por muito que J.L.B.G., médico de profissão, afirme que a poesia é uma “doença” que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever “de dentro da vida” e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso, Atual

História de uma tarde

uma réstia de tarde ainda por resolver.

Não durará muito é certo (espera-a

o esquecimento) somente o necessário até

a noite baixar. Ainda falta esta luz

antes de fechar a praia

(um átimo para esquecer

recordar

voltar atrás). Já não sobra muito eu sei

(só instantes sem momentos) esse pouco

que divisa memória de

ilusão. Procuro o inefável na espessura da tarde –

se eu não guardar num poema esta hora atravessada

nem ela nem esta tarde alguma

vez existirão.

Mediterrâneo, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal

Still Life

Os livros

abandonados no apartamento de Jan falavam

línguas distintas. Podíamos ir pela estante

(coleccionando fronteiras)

tentando adivinhar quem os teria legado

(quem sabe se em desagravo

pelo rumo da história)

suponho que: pelo desvelo que impele

à partilha. Cruzando o apartamento alugado

tantos anos saudei

nos livros esquecidos a experiência do mundo

(breves rasgões na lombada

testemunhando a viagem)

o olvido por companhia cedo demais

para morrer. Nessa idade em que uma mão (a

minha a

sua: leitor) podia da vida quieta

extrair vida ainda.

Você está aqui, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal

Publicado em

Joan Margarit

Nascido em 1938, em plena Guerra Civil, em Sanaüja, uma aldeia na província de Lleida, Joan Margarit incorporou esse conflito na sua obra, que iniciou no final da década de 1950, então ainda em castelhano. Casa da Misericórdia é um exemplo marcante, com as suas referências às crianças orfãs, acolhidas pela instituição de que o livro toma o nome, aos abrigos, as fugas. Morte, separação, velhice, solidão, temas inelutáveis, a que a sua poesia não se furta.

Misteriosamente Feliz, de Joan Margaritjoan-margarit

Elegia da Alvorada

É um poeta cinzento de um país cinzento

numa cidade cinzenta com um grande porto.

E tu procuras-te nele para raconheceres

a angústia e a névoa dos teus olhos.

Permanece na penumbra, como o rapaz

que outrora olhava a chuva atrás dos vidros:

é um poeta cinzento de um país cinzento,

ao amanhecer, numa cidade cinzenta

com um grande porto junto a um mar de Inverno.

 

O corpo cai no futuroMisteriosamente Feliz

como um pássaro num poço.

É um poeta cinzento de um país cinzento,

já surdo para o futuro,

o futuro a que pertence este poema.

Com cores de roupa negra destingida

principia a aurora: na calçada

o vento acumulou as folhas secas,

até que, de súbito, co fúria,

as levanta como uma debandada de pássaros.

O rapaz de há muitos anos

vê surgir o sol atrás dos vidros:

é já um poeta cinzento de um país cinzento

numa cidade cinzenta com um grande porto.

 

Poema Para Um Friso

Era um desenho num papel tão fino

que o levou o vento. Da janela

mais alta até tão longe, ruas, o mar:

o tempo que não recuperarei.

Procurei-o nas praias, no Inverno,

quando mais se lamenta um desenho perdido.

Segui os caminhos de todos os ventos.

Era o desenho a lápis de uma rapariga.

Meu Deus, como o procurei.

 

Organização de Miguel Filipe Mochila

Editora: Língua Morta

Publicado em

Blas de Otero

Blas de Otero Muñoz (Bilbao, 15 de março de 1916 – Majadahonda(Madrid), 29 de junho de 1979) foi um poeta originário do País Basco, tendo, porém, escrito em língua castelhana, considerado um dos principais representantes da poesía social dos anos cinquenta em toda a Espanha.

Anjo Ferozmente Humano, de Blas de Otero

Ar Livre

Se há alguma coisa de que gosto, é viver.
Ver o meu corpo nas ruas,
falar contigo como um camarada,
olhar os escaparatesAnjo-Ferozmente-Humano
e, sobretudo, sorrir de longe
às árvores…

Também gosto dos camiões cinzentos
e muitíssimo mais dos elefantes.
Beijar os teus seios,
deitar-me no teu regaço e despentear-te,
engolir água do mar como cerveja
amarga, escumante.

Tudo o que seja sair
De casa, espirrar de tarde em tarde,
cuspir contra o céu das tundras
e as medalhas dos semelhantes,
sair
deste espaçoso e triste cárcere,
apressar os rios e os sóis,
sair, para o lar livre sair, para o ar.

Tradução: Miguel Filipe Mochila
Edição: Língua Mota

Parece Que Chove

Agora sim está a chover em Bilbao,
é sete de Agosto e chove como na minha infância,
delicadamente
e insistentemente, chove e o ar enche-se de eees,
de leves letras frágeis, indecisas
como aquela manhã dos teus treze anos em Barambio
quando não te atreveste a dizer a Charito que a amavas,
mas chove
e aquilo e tantas outras vicissitudes que foram caindo
sobre a tua vida como uma mansa chuva já não têm remédio,
nem deus o remedeia tal como naquela manhã em que não
chegate a decidir-te em Herrera de Pisuerga junto aos seus
seios tão frescos, chove veladamente, admiravelmente,
um pouco transversalmente,
ah esta Bilbao maçadora em que se não fosse estar a chover
nos afogaríamos todos de tédio,
fumo e beatice, mas chove contra as torres da
quinta paróquia,
e que havemos de fazer se chove
insistentemente
e, deves dizê-lo, delicadamente.

Tradução: Miguel Filipe Mochila
Edição: Língua Morta