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21 Impromptus Para Crianças Peludas

10.00 

de Rui Nuno Vaz Tomé

douda correria#65
21 Impromptus Para Crianças Peludas – Rui Nuno Vaz Tomé
(prefácio de Valério Romão / ilustrações de Júlia Barata / grafismo de Joana Pires)

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Descrição do Produto

«Sempre tive receio, em tudo o que escrevo, de usar referências que de algum modo pudessem datar o texto. Achava que era mais uma forma de tentar evitar o esquecimento que assombra o futuro de todos os escritores. Depois um tipo lê Shakespeare ou Cervantes e percebe que os contratempos da datação terão sido manifestamente exagerados. Não há fórmulas para não ser soterrado pelo esquecimento. Mas há estruturas pelas quais nos regemos, consciente ou inconscientemente, e que respeitamos. E só sabemos que as respeitamos quando damos conta, por contraste, que surge um tipo capaz de as obliterar. Esse tipo é o Rui. E o Rui faz-me sentir velho.
O Rui faz-me sentir o peso da minha própria seriedade, quando eu sempre pensei que laborava do lado da leveza. Mas o Rui mostra-me como se pode ir muito mais longe, e fá-lo de uma forma intensamente lúdica. Eu sou a criança a fazer castelos de areia na praia com baldes coloridos e os meus castelos são os mais bonitos de sempre. Ele é a criança que não espera sequer pela minha distração para os pontapear. E tem razão, toda a gente faz castelos, que importam os meus serem mais altos ou mais complexos. Há que fazer outras coisas. Como o Rui faz.
E fazer outras coisas, na poesia, é uma ocupação arriscada em dois sentidos. Em primeiro lugar, porque a tradição tem horror a corpos estranhos. Sabe que é pela contaminação que perde o seu estatuto. E, se bem que essa perda não corresponda a um esvaziamento de poder mas a uma substituição, a verdade é que a tradição é conservadora e luta, como pode, contra a mudança. Escrever contra a tradição é também escrever contra aqueles que, de forma mais ou menos consciente, participam nela. E o trabalho do escritor torna-se, assim, duplamente solitário.
Por outra parte, o exercício de atirador furtivo implica um risco acrescido de falhar, pois navega-se à vista, sem orientações explícitas e corre-se o perigo de trilhar um caminho sem saída que pode não acrescentar nada a ninguém senão o riso de escárnio paternalista da tradição, que surge inevitavelmente quando alguém que se afasta dela falha. São poucos os que se dispõem a abandonar a segurança do castelo no principado do lugar-comum. E o Rui falha? Claro que sim. Mas falha melhor, nas palavras do outro, e traça um percurso que eu, por inépcia, não fui capaz de ver, um percurso que não sendo seguro, não sendo confortável, não sendo certo, o levará certamente numa direcção distinta e nova e, com persistência e alguma fortuna, mais longe. E quanto um poeta reclama um território desconhecido, fá-lo em nome de todos nós.»

Valério Romão

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Peso 0.100 kg

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