Detalhes

A Única Palavra

10.00 

de Sarah Adamopoulos

Douda Correria#72

a única palavra – Sarah Adamopoulos

(capa de Carolina Bastos/ composição por Joana Pires)

Descrição

3

Posso então prosseguir
sendo quem sou,
religando-me à única palavra
– a cada dia que passa
cresce em mim
a possibildade
de não existir mais nenhuma.

Subo serras que são ondas,
ouço fragas como búzios,
e vejo no espelho imenso do céu
assombros de balbuciar o pasmo.

Faço companhia ao caminho
e abro nele com as mãos
que o escrevem
e a voz que o canta
o poema que será concha
ou rio
ou árvore
ou Outro qualquer
– porque ainda não te disse
o que decerto não concebes:
somos um,
o mesmo,
múltiplos desse que pergunta
quem é
antes ainda de se reconhecer
existente
quando do mistério emerge
o estremecimento inefável
no grande paradoxo de ser assim
– estranheza da partícula
que olhando o Mundo
encontra nele
toda a beleza
e todo o horror.

E isto que digo, Auguste,
não será sentença, definição,
teorema com jargão,
mas tão-somente epifania do poema,
fasma dissolvendo-se na miragem,
logo recompondo a sua aparição
na metamórfica natureza da passagem.

Tão-pouco se quer oculta
esta ascese (ou lá o que é)
que me galga
opondo-se a que o poema
se interponha
– obscurecendo-as –
entre estrelas.

É contra a opacidade que escrevo
e não, não tergiverso
– apenas escavo dentro de mim
em tronco nu diante do Mundo.

Avaliações

Não existem opiniões ainda.

Seja o primeiro a avaliar “A Única Palavra”

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *