Oitenta Flechas Para Atrair a Cotovia

12.00 

de António Cabrita,

Douda Correria#82

Oitenta flechas para atrair a cotovia/ Livro 1 – António Cabrita

(fotografia de capa de Madalena Ávila/ composição de Joana Pires)

Descrição

CARTA EM MESA PÉ-DE-GALO

                                           para o José Colaço Barreiros

 

Fiquei enfim, querido Pasolini, saturado

daquele mundo antigo, das balelas

de espíritos caducos como as rameiras

do Império Romano. Foi do que me salvei

dum expediente que me amolava o espírito

e o declinava em pára-raios,

repetindo sem dúvidas velhas

formalidades, predominações (sabes como

é proibitivo falar em classes) que sobrepunham

razões e deuses alheios ao meu ânimo

secreto, intempestivo. Voltei ao barro,

ao descompasso clandestino, a uma respiração

atreita aos ziguezagues de cada dia,

o que me alarga os horizontes e me não confina

em moldes. E às vezes uma força eruptiva

salta aos olhos, provinda do plinto do inesperado

onde, di-lo Heraclito, conflui a espera.

 

Ainda ontem tentava explicar a dois esquálidos suíços,

amedrontados pela pobreza em África

— this is the middle age, the middle age…—

que a vida deles sem esse testemunho

seria um mero palanque declamatório

e que o martelar nas íris das lancinantes gaiolas

da miséria, os melhoraria como seres humanos

implodindo-lhes os belos corais da letargia?

Mas arrancar suíços à previsão dos mecanismos,

à sua comedida, meridiana torpeza? Mostrei-lhe

o matutino, onde se lia: «Em Neuchâtel, suíço

rapta crianças de dois anos para as devorar».

The real return of the middle age, repliquei.

Não acreditaram, e coléricos pretendiam

ter sido a notícia inventada por um jornalista de mal

escarificado na alma. Peut-être. No circo romano,

a barbaridade espirra pedras pelos olhos.

Porém, crer que o Bem é simétrico ao progresso

das nações é uma ingenuidade que decapita mitos.

E voltaram ao hotel, de olhos fixos no negrume das peles

temendo encontrar pelo caminho trupe de canibais.

 

Como explicar a espíritos tão arreigados

ao decoro, aos impostos, que há uma poética do sujo,

que a vizinha circunvalação do trágico levanta

 

dos escombros as magnólias, o prazer que unge

 

numa pequena conquista, e que o urbanismo,

 

o vero, é cosa mentale? Necessitariam

 

os filhos do conforto, escoltados

pela gadanha da História, de ter nascido nas faldas

de Friul, como tu ou de escorpiões pontapeados

por pastores, como eu, para descortinarem

que por detrás dum sobressaltado

e férreo desajuste do destino cada vida impõe

uma feraz alegria que a resgata,

aos alicates da estatística. Tinha comprado um honesto

vinhito sul-africano para partilhar com eles —

mais fica. Deixemos os juízos aos janotas,

tique-taque, tique-taque, tique-taque, e

sozinho deglutirei as lágrimas de riso de Lázaro.

 

Douda Correria#82

Oitenta flechas para atrair a cotovia/ Livro 1 – António Cabrita

(fotografia de capa de Madalena Ávila/ composição de Joana Pires)

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