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Um Tal de Koslowski

12.00 

de Michael Augustin,

Do Lado Esquerdo #35
“UM TAL DE KOSLOWSKI”
de Michael Augustin
Tradução João Cláudio Arendt
e João Luís Barreto Guimarães

Descrição

A ELECTRICIDADE DO RISO
Koslowski é um personagem indefinido (“Um tal de Koslowski”, Michael Augustin, Do Lado Esquerdo, Coimbra, 2018), gerado por “partenogénese”, de quem sabemos pouca coisa, apesar de sabermos certas coisas que lhe vão acontecendo. Suspeitamos da sua origem polaca, sabemos que é um sonâmbulo e um melómano com especial gosto por parábolas e bares de esquina, exercícios de memória e por viagens, mas ainda assim torna-se difícil defini-lo.
É tentador recordarmos certas personagens de Daniil Kharms ou figuras míticas como o Sr. Keuner, de Bertold Brecht, ou, o Sr. Cogito, de Zbigniew Herbert, mas Koslowski, ambíguo, é melhor caracterizado pelas suas acções e atitudes: por exemplo, sabermos que usou um chapéu de tecido vermelho brilhante à cabeça durante a Segunda Guerra Mundial, sujeitando-se assim a ser alvo de bombardeamentos, ou, conhecer a sua especial afeição por roupa interior feminina. Umas vezes resignado, outras vezes sensível, Koslowski é, talvez, um intelectual de rua, cuja vida se desenha na dicotomia vitória/fracasso, esse abismo que justifica a sua frequente atitude de tudo-ou-nada.
E a seu permanente desassossego. Se por um lado, Koslowski é capaz de gestos violentos – esvaziar penicos sobre o público, lançar rolhas de champagne impregnadas de óleo para cima de senhoras distintas, disparar com uma espingarda de canos serrados contra um casal de namorados – por outro, é de molde a achar totalmente inconcebível e a sentir-se terrivelmente ofendido e insultado, com o comportamento de uma “criança impertinente”, ou com um homem que lhe rouba a audiência quando se tenta suicidar justamente quando ele, Koslowski, se pretendia também suicidar, numa estação de metropolitano.
Este tipo de juízo, aparentemente contraditório e irracional, informa a maior parte das atitudes de Koslowski, tanto quanto a sua frequente inversão de prioridades: certa vez, por exemplo, tocado pela ternura e por um forte desejo pela esposa, abandonou-a sozinha na cama para ir escrever poemas de amor para a cozinha. Este tipo de prioridades.
As estratégias de Koslowski são várias e graduais: nalguns textos, dá particular ênfase e evidência àquilo que não passa de algo muito óbvio, elevando-o – ao óbvio e ao banal – ao estatuto de sublime novidade, algo verdadeiramente extraordinário, através do (ab)uso de adjectivos, de advérbios de modo e do excesso de pormenores e detalhes, mas principalmente através do uso da hipérbole, que o leitor reconhece e aceita, conseguindo-se, desse modo, através do exagero do óbvio, um efeito de humor. Por exemplo, quando descobre visivelmente surpreendido que o consumo de vários copos de bebidas alcoólicas leva a um profundo estado de embriaguez, ou, quando se espanta que um vizinho, ao tentar suicidar-se, tenha morrido.
Noutros casos, mais surreais, Koslowski descreve acções absolutamente impossíveis de acontecer pelas leis da física, da lógica e da razão – situações irreais, absurdas ou bizarras que ocorrem por acaso, por acidente ou por destino – mas que são descritas com tanta naturalidade que quase se tornam verosímeis, esvaziando por instantes no leitor a possibilidade de descrença. É o caso, por exemplo, de quando Koslowski se distrai e apanha o eléctrico errado porque está a ter um dia mau mas acaba por conseguir apear-se à frente da sua própria casa – onde, aliás, não existe paragem nem trilhos de eléctrico – justamente porque o condutor se perde, porque também está a ter um dia mau.
Entre estes textos, estão aqueles em que a sequência de acontecimentos, entre causa e efeito, é tão longa e intrincada, descrita através de repetições e enumerações, que o pobre leitor, enfim, já divertido, é convidado a acreditar em tão emaranhado enredo, daí resultando uma vez mais, um efeito de humor. Estão, entre estes, a despedida, num bar, a uma perna que vai ser amputada, ou, esse outro em que Koslowski descobre a marca da travagem de um camião militar alemão na gaveta superior de uma escrivaninha. Eu repito: a marca da travagem de um camião militar alemão na gaveta superior de uma escrivaninha.
Ora, qual a importância, neste contexto, do humor, que surge na esteira de uma longa tradição europeia, de que Michael Augustin é herdeiro?
É evidente, desde o início do livro, quer nos textos mais curtos que assumem o valor de aforismos, quer nestes micro-contos de maior extensão, que cada um dos 81 poemas em prosa é uma construção – uma construção literária – um acordo que se estabelece entre o autor e cada leitor, um pacto, se quisermos, em que o autor constrói, tijolo a tijolo, o edifício de uma realidade paralela que até seria possível não se desse o caso de ser impossível, e em que o leitor, por instantes, entrando no jogo, aceita acreditar.
Para incrementar a verosimilhança com a realidade, o autor vai pontuando os textos, por um lado, com personagens reais de cuja existência nenhum leitor, à partida, duvidaria – o padeiro, o carteiro, o vizinho, músicos, viúvas, crianças, reformados, o companheiro de bar – e por outro, de geografias conhecidas e reconhecíveis como são a casa, a rua, o restaurante, o eléctrico ou a estação ferroviária.
Até aqui, tudo normal. É quando a acção se inicia, nestas pequenas peças dramatúrgicas – no pequeno palco que é cada página –, quando a cortina se descerra, que é pedido a cada leitor que acredite, que se torne espectador de uma pequena peça, e distenda os limites da sua aceitação, porque existe uma recompensa, uma pequena recompensa, a colher da leitura.
O leitor dá por si a querer acreditar, a tentar encontrar nestas micro-histórias surreais, um fundo de verdade, o coeficiente de verdade que possam conter, e dá por si a aceitar, por instantes, que o mundo criado pela soma destes textos existe, e que é isso que faz deste livro – e da linguagem do absurdo – um dos tons literários que, a par com a ironia e o sarcasmo, melhor conseguem descrever um certo tipo de quotidiano irracional que o autor sabe que cada leitor, seja na Europa, seja em qualquer parte do mundo, já experimentou.
Koslowski – e os restantes personagens que com ele se relacionam – representam amiúde, nem mais, nem menos do que o homem comum, o anti-herói, o individuo médio, e, por extensão, a sociedade, a estatística, a burocracia, a funcionalidade, o cidadão que Kafka tão bem incorporou e descreveu, e que Beckett, Gogol ou Boris Vian comentaram.
Como leitores, reconhecemos as acções, os temas, as preocupações, as situações que aqui são descritas, tantas vezes com exemplos tontos levados a um extremo tal que nos permitem colher a recompensa – o riso – porque nos reconhecemos, enquanto pessoas, na proximidade entre a vida e a morte, na fina linha que define o sofrimento quotidiano, nessa existência cinzenta, na lenta agonia das paragens de autocarro, no tempo que passa, nos dias que contam, num desespero tão sem saída, no apagamento diário a que alguns de nós estão submetidos no exercício tantas e tantas vezes arbitrário das funções laborais, o tal que nos transforma, cegamente, num número, num gráfico, num horário, numa tabela, como algo que tem-mesmo-que-ser-assim, que é-muito-natural, que é-a-necessidade-dos-tempos, mas que se acumula atrás do peito até sufocar, tantas vezes num aperto de injustiça, até rebentar em choro, em riso, em raiva, numa enorme gargalhada de humor – a tal recompensa final – a única saída possível para a angústia diária, para a irracionalidade que, por vezes, a vida representa, propagando-se rapidamente pela pele como uma faísca que nos abana o corpo, nos cerra os olhos, nos lança para trás, que dispara a electricidade do riso, isso que em nós resta, afinal, para que as pequenas contradições quotidianas se tornem, enfim, numa comédia – essa coisa a que nos podemos agarrar para que a morte se vá adiando, em vida.
JLBG
Abril 2018

Texto de João Luís Barreto Guimarães lido durante o REALIZAR:Poesia

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