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Francisco e o Pequenino

Gennady Gogoliuk

Ela é bela. Não, é mais que bela. É a própria vida no seu brilho mais terno de aurora. Não a conheceis. Nunca vistes um único dos seus retratos, mas a evidência está lá, a evidência da sua beleza, a luz sobre os seus ombros, quando se inclina sobre o berço, quando vai escutar a respiração do pequeno Francisco de Assis, que ainda não se chama Francisco, que não passa de um pouco de carne rosada e enrugada, de um homenzinho mais desarmado do que um gatinho ou que um arbusto. Ela é bela, graças a este amor de que se despoja, a fim de com ele revestir a nudez do menino. É bela, pela solicitude com que acorre, uma e outra vez, ao quarto da criança. Todas as mães possuem esta beleza. Todas têm esta justeza, esta verdade, esta santidade. Todas as mães têm esta graça que causa ciúme ao próprio Deus – o solitário, sob a sua árvore de eternidade. Sim, não a podeis imaginar, a não ser revestidos desta roupagem do seu amor. A beleza das mães supera a glória da natureza. Uma beleza inimaginável, a única que poderíeis imaginar para esta mulher atenta a todos os movimentos do menino.

Christian Bobin, in Francisco e o Pequenino

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Perturbações

Todas as noites representavam a mesma ópera, e todas as noites ele ouvia distintamente as palavras e a música. Mas não dominava a língua. Ainda assim, lá estava ele todas as noites à janela, à escuta. Deste modo se apaixonou por uma das actrizes, sem sequer a ter visto. Nunca o teatro o tinha emocionado tanto como nessa ocasião; a paixão das melodias era para ele como o bater de asas de grandes pássaros sombrios, como se pudesse ver as linhas que o seu voo traçava na sua alma. Não eram paixões humanas o que ouvia, não, eram paixões que saíam voando das pessoas, como de gaiolas demasiado acanhadas e vulgares. Na sua excitação, nunca pensava nas pessoas que, do outro lado, invisíveis, davam corpo a essas paixões; quando tentava imaginá-las, logo via diante de si labaredas escuras, dimensões descomunais como corpos que crescem na escuridão ou olhos humanos que brilham como espelhos de poços muito fundos. O que ele amava nessa altura, sob o nome daquela actriz desconhecida, eram essas chamas sombrias, os olhos no escuro, o bater de asas negras.

Robert Musil, in As Perturbações do Pupilo Törless

Pintura: Louis Soutter The Sun is Blackened (Le Soleil se noircit) 1939

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Viragem aos Oitenta de Henry Miller

«Para todas as vossas enfermidades, dou-vos risos.» Quando olho para a minha vida, que tem sido cheia de momentos trágicos, vejo-a mais como uma comédia do que como uma tragédia. Uma dessas comédias nas quais sentimos o coração a despedaçar-se enquanto rimos a bandeiras despregadas. Que melhor comédia pode haver? Quem se leva a sério está condenado.
Outra questão é a tragédia em que vive a esmagadora maioria dos seres humanos. Aí, não encontro quaisquer elementos cómicos de alívio. Quando falo de uma saída indolor para os milhões que sofrem não o faço com cinismo ou como alguém que julga não haver qualquer esperança para a humanidade. A vida em si nada tem de errado. O problema está no oceano no qual nadamos e ao qual nos adaptamos ou naufragamos. Temos, porém, o poder, enquanto seres humanos, de não poluir as águas da vida nem destruir o espírito que nos anima.

Henry Miller, in Viragem aos Oitenta seguido de Viagem a Uma Terra Antiga

Viragem Aos Oitenta seguido de Viagem a Uma Terra Antiga

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Carta de Joseph Roth a Gustav Kiepenheuer

(…)Escrevia artigos absolutamente estúpidos e, consequentemente, ganhei nome. Escrevia maus livros e tornei-me conhecido. Por duas vezes fui rejeitado por Kiepenheuer. Ele ter-me-ia rejeitado pela terceira vez, se entretanto não nos tivéssemos conhecido.
Bebemos uma aguardente num domingo. Ele sentiu-se mal. Os dois ficámos doentes por a termos bebido. Declarámos amizade por uma questão de compaixão, apesar da diferença das nossas naturezas, que só se harmonizam no álcool. Kiepenheuer é um vestfaliano e eu ostfaliano. Dificilmente se consegue imaginar um contraste maior. Ele é um idealista, eu sou céptico. Ele ama os judeus, eu não. Ele é um adepto de progresso, eu sou um reacionário. Ele está sempre jovem, eu estou sempre velho. Ele vai fazer cinquenta anos, eu duzentos. Eu podia ser seu bisavô, se não fosse seu irmão. Eu sou radical, ele é conciliante. Ele é gentilmente indeterminado, eu sou conciso. Ele é justo, eu sou injusto. Ele é optimista, eu sou pessimista.
Deve certamente haver ligações secretas entre nós os dois. Pois, por vezes estamos de acordo com tudo. É como se fizéssemos mutuamente concessões, mas não há concessões nenhumas. Pois, ele não tem nenhuma sensibilidade para o dinheiro. Partilhamos os dois esta característica. É o homem mais cavalheiro que conheço. Eu também, Isso tem ele de mim. Ele perde dinheiro com os meus livros. Eu também. Ele acredita em mim. Eu também. Ele aguarda o meu sucesso. Eu também. Ele está confiante na posteridade. Eu também.
Somos inseparáveis; é a qualidade dele.

Joseph Roth, 1930

Gustav Kiepenheuer (1880-1949), editor alemão que fundou em 1909 a editora Gustav Kiepenheuer Verlag

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José Ángel Cilleruelo

En una nota final el autor del libro que acabo de leer, Carlos Poças Falcão (1959), confirma la extraña concepción de este libro, titulado «Sombra Silêncio» (2018). La convivencia del tono y temas diversos, cierta asimetría formal, la impresión de estar frente a poemas que se han quedado olvidados mucho tiempo en el fondo de un cajón. El primer efecto de la lectura es la nostalgia de lo que no se ha leído: la perfección constructiva de los libros anteriores, la complejidad del desarrollo temático, no ya de los poemas, sino de las series que los engastaban con admirable precisión. En una cita inicial el poeta reconoce también haber sido «convencido» para reunir estos poemas y cuando cierra el volumen el lector comprende la doble necesidad, la de convencerse en publicar lo heterogéneo, pero también la de quien ha deseado convencerle.
Junto a esta extrañeza por la imperfección del conjunto, el lector tiene sobre todo la impresión, al concluir, de que el libro no ha sido, en absoluto, inocuo. Casi en contraluz, evoca la sensación de un estruendo ensordecedor y al mismo tiempo la de una apagada armonía que sigue hechizándole. Y ambas sensaciones opuestas se confunden en el poso que ha dejado el libro con la rotundidad de una huella sobre arena húmeda. Los jirones formales de la estructura han resultado más permeables a aquello, tan imprevisible, que se recuerda de un libro. Es la paradoja de «Sombra Silêncio». El libro ha desatendido la alta exigencia de elaboración artística de su autor para, tal vez, hacerlo crecer poéticamente.
La clave que desvela esta contradicción se descubre en el tema del libro. El ruido del mundo. Siempre el mundo ha disgustado, pero nos adentramos en una época donde la aceleración y el ensordecimiento amenazan las convicciones, sean unas u otras: «Daqui, deste ruido, serei eu, Senhor, capaz / de te ouvir?». Amenazan la idea de construcción perfecta que tuvo el arte, el saber, los valores, las creencias (cualquier interpretación de Senhor es válida)… en el curso de la vida. Y acaso el eco de los poemas impacte en el lector que le ha acompañado a lo largo de las décadas más que su artificio porque sintoniza con una experiencia común de lo real contemporáneo. Esa necesidad de seguir en el vacío orando con las viejas armonías casi consumidas, de palparse antes de afirmar que uno sigue siendo quien cree que es. O ya le ha arrastrado el tsunami de la época. Más que un edificio de palabras con el que defenderse, «Sombra Silêncio» evoca la indefensión del sujeto ante los restos que cada amanecer el mar dispersa por la playa.

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A gravidade planta-se no rosto, no ventre.

A gravidade planta-se
no rosto, no ventre.
É o abandono de Deus.
Por isso na montra
os manequins são livres,
fazem uma ideia oca
inversa
vertiginosa de Deus.
Choro-lhes no ombro até que me comova
a forma humana, as coisas a que pede servidão.
Choro na infância o terror frio
da lua, o leite fervido,
a velha náusea que se forma à superfície.
Tudo me lembra a rósea ferida,
a amálgama dos ossos
cujo brilho a noite, a queda, um som
quebrado expõem.
Tudo
lembra o deslace,
Deus e carne
em feia luta.
Que o corpo, em seu afinco,
é um degrau difícil de descer.
Andreia C. Faria, in Alegria Para o Fim do Mundo
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O Amante de Lady Chatterley

(…) Acredito num mistério superior que não permite que os corações se apaguem. Se está na Escócia e eu nos Midlands e não a posso abraçar e agarrar, resta-me no entanto algo de si. A minha alma palpita docemente consigo na pequena chama de Pentecostes e é como a paz que se sente depois de fazer amor. Há uma chama que nasce quando se faz amor. Até as flores nascem do amor entre o sol e a terra, E tudo isto é um problema delicado que exige paciência e uma longa espera.
E assim gosto da minha castidade neste momento, por que é como a paz que sobrevém ao amor. Gosto de levar uma vida casta, como as goteiras gostam da água da chuva. Gosto da castidade, que é o momento de paz no nosso amor e que é uma chama branca, muito branca. E quando a primavera chegar, quando passarmos a viver juntos, então poderemos, ao fazer amor, tornar a pequena chama brilhante, amarela e brilhante. Agora é impossível. Agora temos de ser castos, e é bom ser casto, é como um rio de água fria na alma. Gosto da castidade que corre agora entre nós. É água fresca da chuva.
Como é possível desejar permanentemente as cansativas aventuras? Ser apenas Don Juan é terrível, não chega para conseguir extrair paz do amor, quando a pseudochama brilha, incapaz de ser casto de vez em quando, como quem se senta na margem de um rio. (…)

D. H. Lawrence, in O Amante de Lady Chatterley
Edição Relógio D’Água

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Pintura: Woman Drying Her Hair. Joseph DeCamp

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Cláudia Lucas Chéu

Há autores que descobri na adolescência, na biblioteca do Seixal, e aos quais volto com alguma regularidade — Kafka, Álvaro de Campos, Shakespeare, Gonçalo M. Tavares, Melville e J.D. Salinger. Os livros destes autores foram, sem dúvida, o gatilho para começar a escrever. A Metamorfose e os Contos de Kafka, Bartleby, O Escrivão de Melville, À Espera no Centeio de Salinger, Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares, entre outros destes autores, contribuíram de uma forma inolvidável para a minha formação. Recentemente, e por frequentar o mestrado em Filosofia, ando a ler A Gaia Ciência de Nietzsche e Temor e Tremor de Søren Kierkegaard que, para mim, são escritos de ficção científica — operam mudanças significativas de raciocínio, é como descobrir que existem outras dimensões. No último ano, também descobri os contos de Salinger (Franny e Zooey e Nove Histórias) que identifico como um mistério paradoxal de atracção — textos simultaneamente simples e sofisticados. Reconheço-lhes mestria, são autênticas peças de relojoaria.

Beber pela Garrafa

Aqueles que vão morrer

Bartleby

A Tempestade

Temor e Tremor

A Gaia Ciência

Aprender a Rezar na Era da Técnica

Nove Histórias

Contos Escolhidos

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Afonso Reis Cabral

Primeiro, acabei O Poço e a Estrada, a biografia de Agustina Bessa-Luís por Isabel Rio Novo. Achei interessante descobrir melhor uma escritora de quem andava mais ou menos distraído, tendo lido apenas alguns livros. De seguida, um inédito de uma amiga, que é um livro intenso, com a escrita direita ao osso da história. Creio que encontrará quem o publique em breve. Depois de anos de vai-não-vai, li por fim Rumor Branco, de Almeida Faria. É de facto muitíssimo bom, embora aquele género de literatura não me cative especialmente – entretanto, já tenho na calha A Paixão. Por último, li o romance O Falcão Peregrino, de Glenway Wescott. Passado numa tarde apenas, as observações dos gestos mais simples e insignificantes tomam uma dimensão universal, em particular no que diz respeito ao amor no contexto do casamento. Lê-se numa tarde e fica muito tempo.

Pão de Açúcar

O Meu Irmão

O Poço e a Estrada

O Falcão Peregrino

Rumor Branco

 

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Manuel Alberto Vieira

Atraiçoaria a verdade se aqui colocasse uma lista definitiva e fiável do que ando a ler, pois sou refém de uma indisciplina que, por defeito, não consigo contrariar. Porém, na arrumação possível do caos, sublinho o que mais me tem estimulado. À cabeça, um daqueles adiamentos imperdoáveis: iniciei finalmente a leitura da Odisseia, de Homero (na tradução de Frederico Lourenço). Tendemos a esquecer aqueles que nos trouxeram até aqui, mas por vezes convém travar a marcha e impor o regresso ao princípio, sob pena de perdermos a humildade necessária ao entendimento do tempo. Para as leituras debicadas que precedem o sono, acumulo neste momento o Ensaios sobre Fotografia, de Susan Sontag, o Juro Não Dizer Nunca a Verdade, de Javier Marías, e o omnipresente Cartas a Lucílio, de Séneca (esse livro-casa). A que acrescentaria as leituras mais obedientes de Os Sete Loucos, do singularíssimo Roberto Arlt, e A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata. Mas talvez o autor que mais me tem impressionado seja o Daniel Jonas. Um acaso improvável, dada a distância que nos separa na geografia literária, todavia justamente sublinhado. É um caso raro de génio. Acabo de lhe revisitar vários poemas e, a cada livro, o regresso dessa estranha certeza de interrupção de uma qualquer ordem fundamental. A sua música desafia a noção canónica; creio que a recusa, na verdade — segue paralelamente a ela, na margem. É uma espécie de voz futura que nos chega do passado (ou de voz passada que nos chega do futuro) e que, por conseguinte, nunca se deixa apanhar (e muito menos fixar). Transfigura o moderno, colocando-o num certo sentido mais à frente — num tempo a que vagamente aspiramos — através da forma que veste o ritmo e domestica a tentação de fazer tese. Ousar o paradoxo de colocar à cintura deste admirável mundo novo um espartilho à medida da mais austera tradição sem nunca perder o fôlego parece-me uma proeza assinalável.

(Fotografia de Manuel Alberto Vieira – Carlos Lobo)

 

Teatro Vertical

Na Presença da Ausência

Odisseia de Homero

Juro Não Dizer Nunca a Verdade

Os Sete Loucos

A Casa das Belas Adormecidas

Canícula

Oblívio

Bisonte


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