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O amor não é uma ideia

(…) O amor não é uma ideia. É uma emoção que pode arrefecer ou aquecer. Vem e vai. É um sentimento que adquire forma e dimensão e tem cinco ou mais sentidos. Por vezes, aparece-nos na forma de um anjo com asas delicadas capazes de nos arrancar da Terra. Por vezes, investe contra nós como um touro, deixa-nos estendidos no chão e vai-se embora. Outras vezes, é uma tempestade que só identificamos depois da devastação que provocou. Outras vezes ainda, cai sobre nós como o orvalho da noite, quando uma mão mágica ordenha uma nuvem errante.
Mas todas estas formas se fundem – se tornam visíveis, perceptíveis e tangíveis – numa mulher, não numa ideia. Amamos a tentação da forma, e a imaginação dedica-se a indagar o que de misterioso e estranho guarda. As almas conhecem-se e desenvolvem proximidade através da forma, que brilha graças à sua essência. E é possível que divirjam na interpretação do que o corpo diz ao corpo e partam em busca de outra transparência, dissolvendo-se em corpos repletos de água, harmonia e música. O amor é caprichoso, mutável, resistente à identidade. É o acometimento que confunde paixão e iluminação. É o que não conheces e sabes que não conheces. É a consumação do significado no não-significado, em virtude da sua excessiva tendência para a gratuitidade e para o esbanjamento. É a antítese da repetição e da pretensão de emendar o ar com cor. Caso contrário, pode converter-se num matrimónio em que a correcção mútua substitui a improvisação da poesia indispensável ao amor. A prosa das tarefas domésticas não serve para conservar duas pêras frescas no prato de mármore, nem para incitar o desconhecido a travar o conhecido. Tem de haver mistério. Tem de haver mistério para que o amor continue a ser surpresa e dádiva. Portanto, não abras o armário que guarda os segredos da natureza dela. (…)

Mahmoud Darwish, in Na Presença da Ausência

Na Presença da Ausência

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Fábula de um Arquitecto

Fábula de um Arquitecto

A arquitectura como construir portas de abrir,
de abrir, ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

João Cabral de Melo Neto, in A Educação Pela Pedra,
Livros Cotovia

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Pintura: Interior Strandgade | Vilhelm Hammershoi | oil painting

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No amor…

No amor entre um homem e uma mulher há sempre um momento em que esse amor atinge o seu zénite, em que não há nele nada de consciente, de racional nem de sensual. Esse momento foi para Nekhliúdov na noite da luminosa ressurreição de Cristo. Ao recordar agora Katiucha, de todas as situações em que a vira, esse momento superava todos os outros. A cabeça negra, lisa, brilhante, o vestido branco pregueado, que lhe moldava virginalmente o corpo esbelto e o peito pequeno, e aquele rubor, e aqueles ternos olhos negros brilhantes, um pouco tortos devido à noite sem dormir, e em todo o seu ser, havia duas linhas principais: a pureza virginal do amor não apenas por ele – isso ele sabia -, mas também de um amor por todos e por tudo, não apenas pelo que de bom existe no mundo – até por aquele mendigo com o qual ela trocou beijos.
Nekhliúdov sabia que havia nela esse amor, porque nessa noite e nessa manhã tinha consciência dele, e tinha consciência de que nesse amor se fundia com ela num único ser.
Ah, se tudo tivesse ficado pelo sentimento que houve nessa noite!

Lev Tolstoi, in Ressurreição

Ressurreição

Pintura de Riza-yi `Abbasi (Pérsia 1565–1635)

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O Homem que Morreu

Depois, o macho começou a passear atrás delas com um ar condescendente; mas sentiu a pata detida pelo limite da corda, e rendeu-se com uma espécie de colapso. Arreava a bandeira, dir-se-ia que minguava e se dissolvia na sombra. Apesar de novo e com um rabo de penas que, embora vistosas, não tinham chegado ao seu auge. O dia voltou, porém, a declinar, e a maré de vida dentro dele fê-lo esquecer o acidente. Quando a galinha favorita deu uma distraída mas provocatória passeata ao seu alcance, atirou-se a ela com todas as penas a vibrar. E o homem que tinha morrido pôde contemplar a vibração instável mas assumida de ave vergada; sem ver a ave mas só a crista de uma onda de vida que, durante um minuto, cobria outra em pleno fluxo de um oscilante oceano de vida. Pareceu-lhe que o destino da vida era afinal mais feroz e coercivo que o destino da morte. A fatalidade da morte uma sombra, se comparada com o destino violento da vida, com a onda implacável da vida.

D. H. Lawrence, in O Homem Que Morreu

Pintura de D. H. Lawrence

O Homem Que Morreu

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O Prelúdio

(…)

Eu era como aquele que se debruça de uma barca
A deslocar-se lentamente sobre o seio
De uma água serena, consolado-se
Com as descobertas que o seu olhar faz
Conforme desce ao fundo do abismo,
E vê tantos espectáculos belos – algas, peixes, flores,
Grutas, seixos, raízes e árvores, e imagina ainda mais,
Muitas vezes perplexo e não conseguindo separar
A sombra da realidade, os rochedos e o céu,
As montanhas e as nuvens, reflectidos na profundeza
Daquele curso límpido, de tudo o que ali vive
No seu verdadeiro lugar; agora a sua visão é atravessada
Pelo reflexo da sua própria imagem, por um raio de sol,
E movimentos ondulantes vindos não se sabe de onde,
Dificuldades que tornam a sua tarefa ainda mais atraente;
Tal é a agradável ocupação que há muito
Prosseguimos, inclinando-nos sobre o passado
Com igual sucesso; e raramente podem surgir
Formas mais belas ou mais nítidas que estas,
Para as quais a minha narrativa, indulgente amigo,
Vem chamar a tua atenção.

(…)

William Wordsworth, in O Prelúdio

O Prelúdio

Os livros do Arnaldo

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Uma Paciência Selvagem, de Adrienne Rich

Madeira-De-Sonho

Na madeira velha, baratucha, riscada, da mesinha da máquina de escrever
há uma paisagem, feita de veios, que só uma criança pode ver
ou o eu mais velho da criança,
uma mulher sonhando quando devia estar a bater à máquina
o último relatório do dia. Se isto fosse um mapa,
pensa ela, um mapa decretado para memorizar
podendo ela talvez percorrê-lo, ele mostra
cordilheira atrás de cordilheira esbatendo-se no deserto nebulento,
aqui e além um sinal de aquíferos
e um possível bebedouro. Se isto fosse um mapa
seria o mapa da última idade da sua vida,
não um mapa de escolhas mas um mapa de variações
sobre a escolha maior. Seria o mapa pelo qual
ela poderia ver o fim das escolhas turísticas,
de distâncias azuladas e arroxeadas de romantismo,
pelo qual ela reconheceria que a poesia
não é revolução mas uma forma de saber
por que tem de vir a revolução. Se esta mesinha de madeira baratucha,
produzida em massa, vinda da Companhia de Gás de Brooklyn,
produzida em massa porém duradoura, presente agora aqui,
é o que é porém um mapa-de-sonho
tão renitente, tão simples,
pensa ela, o material e o sonho podem juntar-se
e isso é o poema e isso é o relatório retardatário.

Adrienne Rich, in Uma Paciência Selvagem

Uma Paciência Selvagem

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O que sucede e não sucede – Javier Marías

Amanhã na Batalha Pensa Em Mim fala, entre outras coisas, do engano no sentido mais vasto da palavra: «Viver no engano é fácil e, mais ainda, é a nossa condição natural e por isso não nos devia doer tanto.» Recorda-se que todos vivemos parcial e permanentemente enganados ou então enganando, contando apenas uma parte, ocultando outra parte e nunca as mesmas partes às diferentes pessoas que nos rodeiam. E no entanto não conseguimos habituar-nos a isso, segundo parece. E quando descobrimos que algo não era como vivemos – um amor ou uma amizade, uma situação política ou uma expectativa comum e mesmo nacional -, surge-nos na vida real esse dilema que tanto nos pode atormentar e que em grande medida é o território da ficção: já não sabemos como foi verdadeiramente o que parecia certo, já não sabemos como vivemos o que vivemos, se foi o que julgávamos enquanto estávamos enganados ou se devemos lançar isso no saco sem fundo do imaginário e tratar de reconstruir os nossos passos à luz da revelação actual e do desengano. A mais completa biografia, até a nossa própria, é feita apenas de fragmentos irregulares e de descoloridos retalhos. Acreditamos poder contar as nossas vidas de maneira mais ou menos razoável e honesta, e quando começamos apercebemo-nos de que estão povoadas de zonas de sombra, de episódios inexplicados e talvez inexplicáveis, de opções não tomadas, de oportunidades não aproveitadas, de elementos que ignoramos porque dizem respeito aos outros, dos quais ainda é mais difícil saber tudo ou saber um pouco que seja. O engano e a sua descoberta fazem-nos ver que também o passado é instável e movediço, que nem sequer o que nele parece já firme e a salvo é definitivo ou é para sempre, que o que foi está também inquinado pelo que não foi, e que o que não foi ainda pode ser.
O género do romance fornece isso ou sublinha-o ou trá-lo à nossa memória e à nossa consciência, daí talvez o facto de perdurar e de não ter morrido, ao contrário do que tantas vezes foi anunciado. Daí que talvez não seja justo o que disse no início, a saber, que o romance conta o que não sucedeu. Talvez aconteça antes que os romances sucedem pelo facto de existirem e serem lidos e, vendo bem as coisas, passado o tempo tem mais realidade D. Quixote do que qualquer dos seus contemporâneos históricos da Espanha do século XVII; Sherlock Holmes aconteceu mais do que a Rainha Victória, porque continua a acontecer repetidamente, como se fosse um ritual; a França do início do século mais verdadeira e perdurável, mais «visitável», é sem dúvida a que aparece no Em Busca do Tempo Perdido; e imagino que para os senhores a imagem mais autêntica do vosso país esteja misturada com as páginas inventadas de don Rómulo Gallegos. Um romance não apenas conta como nos permite assistir a uma história ou a acontecimentos ou a um pensamento, e ao assistir compreendemos.

Discurso pronunciado por Javier Marías em Caracas a 2 de Agosto de 1995, durante a cerimónia de entrega do Prémio Internacional Rómulo Gallegos

Imagem de Destaque: Outros Destinos, de Jorge Martins

Amanhã na Batalha Pensa em Mim

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Confabulações

O que me levou a escrever ao longo dos anos foi o pressentimento de que há alguma coisa que precisa de ser dita e que, se eu não a tentar dizer, há o risco de ela ficar por dizer. Imagino-me não tanto como um escritor consequente e profissional, mas mais como um homem para as emergências.
Depois de ter escrito algumas linhas, deixo que as palavras retornem à criatura da sua linguagem. E, lá, elas são instantaneamente reconhecidas e saudadas por um conjunto de outras palavras, com as quais têm afinidades de sentido ou de oposição, de metáfora ou de aliteração ou ritmo. Escuto as suas confabulações. Juntas, estão a contestar o uso que eu dei às palavras que escolhi. Estão a questionar os papéis que lhes atribuí.
Por isso, modifico as linhas, mudo uma ou duas palavras e submeto-as a nova apreciação. Começa outra confabulação.
E continuo assim até haver um murmúrio surdo de assentimento provisório. Então, prossigo para o parágrafo seguinte.
Começa outra confabulação…
Os outros podem classificar-me como quiserem enquanto escritor. Para mim próprio sou o filho da puta – e conseguem adivinhar quem é a puta, não conseguem?

John Berger, in Confabulações

Ilustração de Jean-François Martin

Confabulações

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Javier

Quando alguém passa a ser apenas o seu apelido, esse alguém costuma ser considerado um triunfo – sobretudo em França, onde é um cunho de unicidade -, mas na verdade é uma despersonalização, uma coisificação, uma comercialização, uma condecoração barata que outros podem pendurar a troco de pouco: de lisonjas, de um pequeno investimento ou de vagas promessas, nada mais. Em Espanha, curiosamente, ainda se dá mais importância ao facto de alguém passar a ser apenas um nome próprio, algo ao alcance de quatro ou cinco ou seis: «Federico» é Garcia Lorca sem lugar para dúvidas, como «Rubén» é Rubén Darío, «Juan Ramón» é o Prémio Nobel Jiménez, «Ramón» é Gómez de la Serna, «Mossèn Cinto» é Verdaguer e «Garcilaso», cinco séculos antes, é Garcilaso de la Vega, há muito tempo que a lista não aumenta, quem sabe se para entrar nela também seja preciso um apelido demasiado longo ou por de mais comum ou que se preste a confusão (a existência de Lope de Vega deve ter ajudado os três, «Garcilaso», «Lope» e «Inca Garcilaso», a quem se chama de modo tão absurdo para o distinguir do seu homónimo cabal), e eventualmente um pingo de afecto pseudopopular que convide à familiaridade.

Javier Marías, in Assim Começa o Mal

 

Anjo e Duende

Poemas

Assim Começa o Mal

As Pequenas Histórias

Curiosidades Literárias e Outros Contos

Platero e Eu

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Mundial 2018 – A selecção da Flâneur

Faz dois anos, a Flâneur apresentava a sua primeira convocatória para o Campeonato Europeu, que logo venceu! Agora queremos o Mundial e para atingir tal desiderato (abusarei da linguagem futebolística), reunimos aqueles que de momento nos dão mais garantias de vitória, no plano físico e táctico. Mescla de juventude e experiência, notem que baixamos em 50 anos a média de idade da selecção (123 a anterior), ei-los, os nossos campeões.
 
1 – Heterónimos de Fernando Pessoa, porque baliza preenchida é baliza bem defendida.
 
2 e 3 – Na defesa, entregues às alas, temos Luiz Pacheco e Ângelo de Lima.
 
4 e 5 – No centro da defesa temos Diogo Vaz Pinto, bom jogo de cabeça e forte na marcação individual é também exímio nos lançamentos com e em profundidade. A bola não lhe sai morta dos pés. Ao seu lado está Miguel Torga, o mais internacional futebolista português, jogador duro mas leal, sabe bem os terrenos que pisa.
 
No meio campo apresentamos uma dinâmica linha de 4, basculante, que se desdobra em losango no momento ofensivo (pressing alto) e triângulo no momento defensivo.
 
6 – À direita está Elisabete Marques, jovem talento da academia, rápida, veloz, lesta, nada lenta, antes pelo contrário. Futebolista de sangue frio, é quem assume todas as bolas paradas. De fino recorte técnico, é a rainha das assistências.
 
7 – Andreia C. Faria é quem joga pela esquerda, um pouco acima do lugar onde melhor joga na selecção, no entanto, jogadora polivalente, pode também fazer o lado direito e até os flancos. Repentista e perfeita no drible em progressão, é a chamada falsa lenta. Inteligente a ocupar o espaço vazio e no jogo entre linhas, tem perfume a nossa craque.
 
8 – No miolo, a sagacidade e a visão de jogo de Manuel António Pina. É o cérebro da equipa, quem pauta todo o ritmo de jogo.
 
9 – Gonçalo M. Tavares, o menino que veio do bairro para os relvados. Forte nas segundas bolas e a rodar sobre si mesmo, é o génio dos passes de ruptura.
 
10 e 11 – O ataque é formado por Daniel Jonas, 1 metro e 97 de golo, nada tosco e com caracóis. Ao seu lado, forte a jogar de costas para a baliza e a provocar o desgaste dos defesas contrários, temos Rosa Alice Branco, também de caracóis. A fazer lembrar as nossas lendas (Cadete, Paulo Futre, Chalana, entre outros), esta possante dupla avançada sabe que ao futebolista não lhe basta ser, tem de parecer, e por isso , não descura nunca o visual na hora de festejar.
 
O Mister, o nosso “special one”, é Pedro Eiras. Com um trajecto vitorioso em todos os escalões de formação e um profundo conhecimento das principais academias do mundo, rapidamente se afirmou como líder da nossa selecção, revolucionando toda a metodologia do treino e do jogo. Rigoroso e disciplinador, gosta de jogar bonito. Privilegia a nota artística mas não vai em cantatas, a não ser as BWV, claro.