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Viragem aos Oitenta de Henry Miller

«Para todas as vossas enfermidades, dou-vos risos.» Quando olho para a minha vida, que tem sido cheia de momentos trágicos, vejo-a mais como uma comédia do que como uma tragédia. Uma dessas comédias nas quais sentimos o coração a despedaçar-se enquanto rimos a bandeiras despregadas. Que melhor comédia pode haver? Quem se leva a sério está condenado.
Outra questão é a tragédia em que vive a esmagadora maioria dos seres humanos. Aí, não encontro quaisquer elementos cómicos de alívio. Quando falo de uma saída indolor para os milhões que sofrem não o faço com cinismo ou como alguém que julga não haver qualquer esperança para a humanidade. A vida em si nada tem de errado. O problema está no oceano no qual nadamos e ao qual nos adaptamos ou naufragamos. Temos, porém, o poder, enquanto seres humanos, de não poluir as águas da vida nem destruir o espírito que nos anima.

Henry Miller, in Viragem aos Oitenta seguido de Viagem a Uma Terra Antiga

Viragem Aos Oitenta seguido de Viagem a Uma Terra Antiga

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Carta de Joseph Roth a Gustav Kiepenheuer

(…)Escrevia artigos absolutamente estúpidos e, consequentemente, ganhei nome. Escrevia maus livros e tornei-me conhecido. Por duas vezes fui rejeitado por Kiepenheuer. Ele ter-me-ia rejeitado pela terceira vez, se entretanto não nos tivéssemos conhecido.
Bebemos uma aguardente num domingo. Ele sentiu-se mal. Os dois ficámos doentes por a termos bebido. Declarámos amizade por uma questão de compaixão, apesar da diferença das nossas naturezas, que só se harmonizam no álcool. Kiepenheuer é um vestfaliano e eu ostfaliano. Dificilmente se consegue imaginar um contraste maior. Ele é um idealista, eu sou céptico. Ele ama os judeus, eu não. Ele é um adepto de progresso, eu sou um reacionário. Ele está sempre jovem, eu estou sempre velho. Ele vai fazer cinquenta anos, eu duzentos. Eu podia ser seu bisavô, se não fosse seu irmão. Eu sou radical, ele é conciliante. Ele é gentilmente indeterminado, eu sou conciso. Ele é justo, eu sou injusto. Ele é optimista, eu sou pessimista.
Deve certamente haver ligações secretas entre nós os dois. Pois, por vezes estamos de acordo com tudo. É como se fizéssemos mutuamente concessões, mas não há concessões nenhumas. Pois, ele não tem nenhuma sensibilidade para o dinheiro. Partilhamos os dois esta característica. É o homem mais cavalheiro que conheço. Eu também, Isso tem ele de mim. Ele perde dinheiro com os meus livros. Eu também. Ele acredita em mim. Eu também. Ele aguarda o meu sucesso. Eu também. Ele está confiante na posteridade. Eu também.
Somos inseparáveis; é a qualidade dele.

Joseph Roth, 1930

Gustav Kiepenheuer (1880-1949), editor alemão que fundou em 1909 a editora Gustav Kiepenheuer Verlag

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José Ángel Cilleruelo

En una nota final el autor del libro que acabo de leer, Carlos Poças Falcão (1959), confirma la extraña concepción de este libro, titulado «Sombra Silêncio» (2018). La convivencia del tono y temas diversos, cierta asimetría formal, la impresión de estar frente a poemas que se han quedado olvidados mucho tiempo en el fondo de un cajón. El primer efecto de la lectura es la nostalgia de lo que no se ha leído: la perfección constructiva de los libros anteriores, la complejidad del desarrollo temático, no ya de los poemas, sino de las series que los engastaban con admirable precisión. En una cita inicial el poeta reconoce también haber sido «convencido» para reunir estos poemas y cuando cierra el volumen el lector comprende la doble necesidad, la de convencerse en publicar lo heterogéneo, pero también la de quien ha deseado convencerle.
Junto a esta extrañeza por la imperfección del conjunto, el lector tiene sobre todo la impresión, al concluir, de que el libro no ha sido, en absoluto, inocuo. Casi en contraluz, evoca la sensación de un estruendo ensordecedor y al mismo tiempo la de una apagada armonía que sigue hechizándole. Y ambas sensaciones opuestas se confunden en el poso que ha dejado el libro con la rotundidad de una huella sobre arena húmeda. Los jirones formales de la estructura han resultado más permeables a aquello, tan imprevisible, que se recuerda de un libro. Es la paradoja de «Sombra Silêncio». El libro ha desatendido la alta exigencia de elaboración artística de su autor para, tal vez, hacerlo crecer poéticamente.
La clave que desvela esta contradicción se descubre en el tema del libro. El ruido del mundo. Siempre el mundo ha disgustado, pero nos adentramos en una época donde la aceleración y el ensordecimiento amenazan las convicciones, sean unas u otras: «Daqui, deste ruido, serei eu, Senhor, capaz / de te ouvir?». Amenazan la idea de construcción perfecta que tuvo el arte, el saber, los valores, las creencias (cualquier interpretación de Senhor es válida)… en el curso de la vida. Y acaso el eco de los poemas impacte en el lector que le ha acompañado a lo largo de las décadas más que su artificio porque sintoniza con una experiencia común de lo real contemporáneo. Esa necesidad de seguir en el vacío orando con las viejas armonías casi consumidas, de palparse antes de afirmar que uno sigue siendo quien cree que es. O ya le ha arrastrado el tsunami de la época. Más que un edificio de palabras con el que defenderse, «Sombra Silêncio» evoca la indefensión del sujeto ante los restos que cada amanecer el mar dispersa por la playa.

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A gravidade planta-se no rosto, no ventre.

A gravidade planta-se
no rosto, no ventre.
É o abandono de Deus.
Por isso na montra
os manequins são livres,
fazem uma ideia oca
inversa
vertiginosa de Deus.
Choro-lhes no ombro até que me comova
a forma humana, as coisas a que pede servidão.
Choro na infância o terror frio
da lua, o leite fervido,
a velha náusea que se forma à superfície.
Tudo me lembra a rósea ferida,
a amálgama dos ossos
cujo brilho a noite, a queda, um som
quebrado expõem.
Tudo
lembra o deslace,
Deus e carne
em feia luta.
Que o corpo, em seu afinco,
é um degrau difícil de descer.
Andreia C. Faria, in Alegria Para o Fim do Mundo
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O Amante de Lady Chatterley

(…) Acredito num mistério superior que não permite que os corações se apaguem. Se está na Escócia e eu nos Midlands e não a posso abraçar e agarrar, resta-me no entanto algo de si. A minha alma palpita docemente consigo na pequena chama de Pentecostes e é como a paz que se sente depois de fazer amor. Há uma chama que nasce quando se faz amor. Até as flores nascem do amor entre o sol e a terra, E tudo isto é um problema delicado que exige paciência e uma longa espera.
E assim gosto da minha castidade neste momento, por que é como a paz que sobrevém ao amor. Gosto de levar uma vida casta, como as goteiras gostam da água da chuva. Gosto da castidade, que é o momento de paz no nosso amor e que é uma chama branca, muito branca. E quando a primavera chegar, quando passarmos a viver juntos, então poderemos, ao fazer amor, tornar a pequena chama brilhante, amarela e brilhante. Agora é impossível. Agora temos de ser castos, e é bom ser casto, é como um rio de água fria na alma. Gosto da castidade que corre agora entre nós. É água fresca da chuva.
Como é possível desejar permanentemente as cansativas aventuras? Ser apenas Don Juan é terrível, não chega para conseguir extrair paz do amor, quando a pseudochama brilha, incapaz de ser casto de vez em quando, como quem se senta na margem de um rio. (…)

D. H. Lawrence, in O Amante de Lady Chatterley
Edição Relógio D’Água

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Pintura: Woman Drying Her Hair. Joseph DeCamp

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Cláudia Lucas Chéu

Há autores que descobri na adolescência, na biblioteca do Seixal, e aos quais volto com alguma regularidade — Kafka, Álvaro de Campos, Shakespeare, Gonçalo M. Tavares, Melville e J.D. Salinger. Os livros destes autores foram, sem dúvida, o gatilho para começar a escrever. A Metamorfose e os Contos de Kafka, Bartleby, O Escrivão de Melville, À Espera no Centeio de Salinger, Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares, entre outros destes autores, contribuíram de uma forma inolvidável para a minha formação. Recentemente, e por frequentar o mestrado em Filosofia, ando a ler A Gaia Ciência de Nietzsche e Temor e Tremor de Søren Kierkegaard que, para mim, são escritos de ficção científica — operam mudanças significativas de raciocínio, é como descobrir que existem outras dimensões. No último ano, também descobri os contos de Salinger (Franny e Zooey e Nove Histórias) que identifico como um mistério paradoxal de atracção — textos simultaneamente simples e sofisticados. Reconheço-lhes mestria, são autênticas peças de relojoaria.

Beber pela Garrafa

Aqueles que vão morrer

Bartleby

A Tempestade

Temor e Tremor

A Gaia Ciência

Aprender a Rezar na Era da Técnica

Nove Histórias

Contos Escolhidos

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Afonso Reis Cabral

Primeiro, acabei O Poço e a Estrada, a biografia de Agustina Bessa-Luís por Isabel Rio Novo. Achei interessante descobrir melhor uma escritora de quem andava mais ou menos distraído, tendo lido apenas alguns livros. De seguida, um inédito de uma amiga, que é um livro intenso, com a escrita direita ao osso da história. Creio que encontrará quem o publique em breve. Depois de anos de vai-não-vai, li por fim Rumor Branco, de Almeida Faria. É de facto muitíssimo bom, embora aquele género de literatura não me cative especialmente – entretanto, já tenho na calha A Paixão. Por último, li o romance O Falcão Peregrino, de Glenway Wescott. Passado numa tarde apenas, as observações dos gestos mais simples e insignificantes tomam uma dimensão universal, em particular no que diz respeito ao amor no contexto do casamento. Lê-se numa tarde e fica muito tempo.

Pão de Açúcar

O Meu Irmão

O Poço e a Estrada

O Falcão Peregrino

Rumor Branco

 

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Manuel Alberto Vieira

Atraiçoaria a verdade se aqui colocasse uma lista definitiva e fiável do que ando a ler, pois sou refém de uma indisciplina que, por defeito, não consigo contrariar. Porém, na arrumação possível do caos, sublinho o que mais me tem estimulado. À cabeça, um daqueles adiamentos imperdoáveis: iniciei finalmente a leitura da Odisseia, de Homero (na tradução de Frederico Lourenço). Tendemos a esquecer aqueles que nos trouxeram até aqui, mas por vezes convém travar a marcha e impor o regresso ao princípio, sob pena de perdermos a humildade necessária ao entendimento do tempo. Para as leituras debicadas que precedem o sono, acumulo neste momento o Ensaios sobre Fotografia, de Susan Sontag, o Juro Não Dizer Nunca a Verdade, de Javier Marías, e o omnipresente Cartas a Lucílio, de Séneca (esse livro-casa). A que acrescentaria as leituras mais obedientes de Os Sete Loucos, do singularíssimo Roberto Arlt, e A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata. Mas talvez o autor que mais me tem impressionado seja o Daniel Jonas. Um acaso improvável, dada a distância que nos separa na geografia literária, todavia justamente sublinhado. É um caso raro de génio. Acabo de lhe revisitar vários poemas e, a cada livro, o regresso dessa estranha certeza de interrupção de uma qualquer ordem fundamental. A sua música desafia a noção canónica; creio que a recusa, na verdade — segue paralelamente a ela, na margem. É uma espécie de voz futura que nos chega do passado (ou de voz passada que nos chega do futuro) e que, por conseguinte, nunca se deixa apanhar (e muito menos fixar). Transfigura o moderno, colocando-o num certo sentido mais à frente — num tempo a que vagamente aspiramos — através da forma que veste o ritmo e domestica a tentação de fazer tese. Ousar o paradoxo de colocar à cintura deste admirável mundo novo um espartilho à medida da mais austera tradição sem nunca perder o fôlego parece-me uma proeza assinalável.

(Fotografia de Manuel Alberto Vieira – Carlos Lobo)

 

Teatro Vertical

Na Presença da Ausência

Odisseia de Homero

Juro Não Dizer Nunca a Verdade

Os Sete Loucos

A Casa das Belas Adormecidas

Canícula

Oblívio

Bisonte


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Criança e Flor

Feliz o recém-nascido,
(De acordo com as melhores conjecturas queria referir
Como evolui no mundo a nossa Existência), abençoada a criança,
Acariciada nos braços da Mãe, adormecendo
Embalada no seio materno; ela, com a sua alma,
Bebe as emoções no olhar materno!
Para ela, na Presença única e amada, existe
Uma virtude que irradia e exalta
Os objectos através da mais vasta comunhão dos sentidos.
Não é uma exilada, perplexa e abatida;
Ao longo das suas veias de criança
Misturam-se a gravitação e os laços filiais
Da Natureza que a ligam ao Universo.
Aponta para uma flor ainda com a mão
Demasiado hesitante para a colher, mas para ela
Já é o amor, que, vindo da sua mais pura fonte terrestre,
Tornou bela esta flor; já as sombras
Da piedade que chegam de uma ternura interior
Ficam à sua volta sobre o que traz consigo
As cicatrizes informes da violência e do mal.
Forçosamente tal ser vivo existe,
Por muito frágil que seja, ao mesmo temo frágil e débil,
Ele é um ser deste universo cheio de vida:
O sentimento transmitiu-lhe uma força
Que, através das faculdades crescentes dos sentidos,
Como instrumentos do único e supremo Espírito,
Cria, sendo que cria e quem recebe,
Num trabalho que é a aliança com as obras
Que contempla, Tal é, verdadeiramente, o inicial
Espírito poético na nossa vida humana,
Que, devido à uniforme disciplina dos anos,
Em muitos se torna menor ou é destruído; em alguns,
Mesmo que se altere, por se desenvolver ou não,
Ele domina até à morte.

William Wordsworth, in O Prelúdio

O Prelúdio

Os livros do Arnaldo

Pintura de Albert Anker

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Alexandre Andrade

Estou a ler um ensaio de Gérard Genette, intitulado Seuils, que se debruça sobre o paratexto, ou seja, os elementos do livro publicado que circundam, complementam e enquadram o texto propriamente dito: título, prefácio, notas de rodapé, índice, bibliografia, etc. Gosto do estilo de Genette, que consegue equilibrar humor, erudição e vontade genuína de partilhar conhecimento e pontos de vista, embora ocasionalmente se torne demasiado palavroso e coloquial para o meu gosto. Em ficção, decidi por fim lançar-me à aventura de encetar o primeiro volume de O Homem Sem Qualidades, de Musil. É uma altura da minha vida tão boa como qualquer outra para isso. Ainda é cedo para poder transmitir qualquer impressão. Para já, pouco mais se sabe do que isto: o homem sem qualidades chama-se Ulrich, mora numa vivenda e tem uma amante. Também tenho andado a ler, muito espaçadamente, a antologia completa dos contos de V.S. Pritchett, um calhamaço que exige uma certa preparação física para ser manuseado. Nos que já li, sobressai uma capacidade rara de retratar traços de carácter por meio de pequenos enredos aparentemente inócuos. Em poesia, estou a ler Azul e Vermelho, de Adriana Crespo, uma autora que tem vindo a construir uma obra singularíssima de beleza e inteligência, espalhada por alguns (demasiado raros) livros, inéditos e uma constelação de blogs. Seria bom que o reconhecimento mais amplo desta autora, que é inevitável, se situe num futuro muito próximo e não numa qualquer posteridade distante que lance sobre nós um olhar condoído por não termos sabido apreciar devidamente a excelência.

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