A tensão que se condensa no vidro, anacronicamente comportando os atravessamentos dos tempos na sua transparência, que muito esconde ao supostamente revelar: é a ilusão angustiada que Erika Rodrigues parece colocar-nos prestes a tocar em De uma membrana vítrea nasceram espectros. Lá, onde os elementos se confundem com movimentos, ritmos e imaginários. O futuro e o passado aliam-se no instante à dissidência do presente, no qual já não se pode tatear, pensar, sentir, senão como uma fratura. Pensa-se o futuro do dizer a partir do retorno hieroglífico à falsa origem da escrita. As ondas deslocam-se, já em movimento, nos cabelos encaracolados conduzidos pelo vento, a desembocar nos grãos de areia deslizantes, que assumem a dissolução e a reconstituição constante de tudo. Enche-se, aos punhados, a boca de uma sinestesia que mistura a chuva com a terra que pressente o choro dos céus. (...) A poesia de Erika Rodrigues espanta ao inscrever-nos num movimento que não cessa e que nos joga ao mar, de frente à miragem de um dia, enfim, tocarmos o dedo de Deus.
Mayara Dionizio