«O espectador que se depara com uma criação comovente fala com frequência da ideia do seu autor. Mas a criação não começa com uma ideia.
No criador, é o espanto que gera. O espanto é um olhar novo: o olho mantém a sua função, mas essa função perdeu a sua importância; nasceu uma percepção secundária.
Ela surge involuntariamente do imperceptível, da desatenção às sensações fracas, como as do menino que, já trabalhado pelo instinto sexual, não conhece nem o nome nem o destino dos impulsos que se tramam dentro dele, mas que atraem cada vez mais a sua atenção e transformam a sua negligência, a sua distracção, em espanto.
Ao familiarizarmo-nos com os nascimentos que germinam nesse fundo mental, ao concentrarmos a nossa atenção nessas emoções, as percepções que ainda são apenas um pressentimento, destino, opacidade, transformam-se em evidências. A tenebrosa falta de atenção ao que germinava torna-se força manifesta, espanto, choque.
O espanto desenvolve-se em mestria, varia sobre si mesmo, desgasta-se e morre no hábito e na decepção de não encontrar mais as mesmas emoções nas mesmas coisas. Regressa a letargia infantil, a sensibilidade volta ao imperceptível; o círculo fecha-se. O nosso olhar migra sucessivamente do imperceptível e insensível para o perceptível e sensível, depois, pela gama do esgotamento e da desilusão, regressa ao insensível e insignificante; caminha como uma onda, em cumes e vales sucessivos.
A mestria pode florescer já provida de muitas decepções passadas, e o colapso da decepção pode ser forte como um choque em germe; o que evoca círculos onde esses factores se sucedem perpetuamente. Cada círculo percorrido convoca o percurso do seu semelhante, enquanto aquele que os efectua, impelido de desatenção em desatenção, de espanto em espanto, de decepção em decepção, fica mais forte após cada círculo.»
Escritos Diversos
Bernard Réquichot
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