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Flâneur

Um dia tudo isto será meu
João Habitualmente

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Há na poesia de João Habitualmente uma impressão de ironizar tudo em favor de certa nostalgia. Não é imediato. Vamo-nos inteirando de seu espírito lentamente, disfarçado como está numa contida desgraça também cómica.


Pode acentuar-se nos poemas em que as moças, a palha e os campos seguem um imaginário algo antigo. Sabemos das aldeias como do lugar onde a verdade morreu.


O jeito de Habitualmente é muito específico. Produz um efeito quase mal-educado, um impropério ou modo de se marimbar, que fere os poemas na sua rama mais lírica, por vezes meio romântica, a prometer desfechos bem comportados que nem sempre se consumam.


Temos constantemente a sensação de o poema ser devorado pelo golpe do que não se domina, uma inclinação para que se diga de modo armado, perigando a condição do poeta e denunciando a desfaçatez do mundo. Todas as figuras são dignas de serem, a um tempo, maravilhosas e terríveis. Todas podem tornar-se risíveis.


É talvez o traço mais constante da poesia de João Habitualmente, a assunção da falha. Algo que poderia ser imaculado mas que, por azar da extrema realidade, se vulnerabiliza. Como aquela história da educação. Tem tudo para ser irrepreensível, de uma cultura e elegâncias inestimáveis mas, aqui e ali, não contém a limpidez do protesto. A limpidez da catarse. Fá-lo brilhantemente. Protesta, insulta e ama brilhantemente.


por Valter Hugo Mãe, coordenador da coleção elogio da sombra.

  • Autor
    João Habitualmente
  • Editora
    Porto Editora
  • Género
    Literatura, Poesia
  • ISBN
    9789720032270
  • Coleção
    Elogio da Sombra
  • Edição/Reimpressão
    Setembro 2019
  • Idioma
    Português