Civilização

10.00 

de Lígia Soares,

Douda Correria#102
Civilização – Lígia Soares
(capa de Marco Franco/ composição por Inês Mateus)

Descrição

«(…)
E, estando parados aqui, não paramos.
Temos muitas exigências do foro individual e dizemo-nos a nós mesmos o foro pelo qual temos de lutar.
Porque sabemos que somos sobreviventes.
Todos.
Independentemente das nossas comodidades.
Pensavam outros que nos domavam o ânimo com o processamento da comida e outros produtos anestesiantes?
Mas não, continuamos tão insaciáveis como sempre fomos.
E somos, pelo menos, sobreviventes dos nossos naufrágios individuais.
E isso já tem de valer alguma coisa.
Ou acham que não?
Sofremos as nossas desilusões porque nos quiseram iludir, e o sofrimento por desilusão é tão válido como qualquer outro sofrimento.
E vocês perguntam-me:
Ou achas que não?
E eu digo:
Com certeza estejam à vontade, temos todo o tempo para sofrer.
E ainda me perguntam:
Ou temos menos direito ao sofrimento só porque vivemos uma ilusão?
E eu digo que a ilusão é tão real no nosso tempo como qualquer outra realidade, e ainda acrescento:
E também pode matar como qualquer outra realidade que seja real.
E vocês dizem, mais descansados:
Ah, bem…
E eu completo que não estou aqui a fazer juízos de valor.
E vocês saltam e ladram de contentes, perdão, vocês dizem com indignação:
Era só o que mais faltava!
E eu aproveito a vossa disponibilidade e interesse neste assunto, para desenvolver mais um pouco:
Temos o direito de nos compararmos aos outros porque, à partida, somos todos iguais.
E vocês repetem:
Somos todos iguais!
Temos o direito de invejar os corpos musculados dos trabalhadores agrícolas dos países do hemisfério sul, e de os usar como objetivo a atingir nos nossos ginásios.
E vocês repetem:
Os direitos a atingir nos nossos ginásios!
Temos o direito de lamentar respirar o ar que poluímos.
E vocês repetem:
O direito a respirar o ar que poluímos!
E de chorar as nossas liberdades morais que nos afastam dos nossos mais fiéis amores e nos aproximam daqueles que não percebem nada do que nos vai cá dentro.
E vocês repetem:
Reclamar o que nos vai cá dentro!
Temos o direito, temos os direitos, podemos dormir descansados.
E vocês repetem:
O direito a dormir descansados.
E continuam sempre a repetir mesmo enquanto dormem.
O direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados, o direito a dormir descansados…
(…) »

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