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Paisagens da China e do Japão, de Wenceslau de Moraes

“Há alguns dias, na cidade de Kobe, – poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, – irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo. Irrompeu, surgiu de um pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol, e com ele todas as grandes forças naturais, são ainda uns selvagens – se assim posso expressar-me – uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa: neste país do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das crianças e a quinta essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.”

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Paisagens da China e do Japão é um livro composto por 17 crónicas literárias e contos, escritos sobre a realidade da China, particularmente de Macau, e sobre o Japão, país que Wenceslau de Moraes escolheu para passar o resto da sua vida. Uma viagem pela cultura de ambos os países, nessa altura ainda muito desconhecidos em Portugal. Todos os contos são ilustrados com gravuras, antigas litografias que o autor escolhera para ilustrar os contos e, inclusive, desenhos originais do próprio Wenceslau de Moraes.

Pintura de Shoda-Kakuyu

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Matsuo Bashô – Yosa Buson – Masaoka Shiki – Kobayashi Issa

Matsuo Bashô (Tóquio, 1644 – Osaka, 28 de Outubro de 1694)

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landscape with a solitary traveler – Yosa Buson

O deus está longe;              

empilham-se as folhas mortas

e tudo é deserto.

Começo de outono;

quer o mar, quer as campinas,

tudo é um só verde.

Entrega ao salgueiro

o tédio e todo o desejo

do teu coração.

Entre os pessegueiros,

florindo por todo o lado,

agora a cerejeira.

 

Esvai-se o som da noite;

sobre o perfume das flores —

um sino tocou.

 

Tudo o que me cerca

e encontra o meu olhar

é fresco e é novo.

 

No meio da planície

uma cotovia canta,

liberta de tudo.

 

Lua cheia, outono —

caminhei a noite inteira

ao redor do lago.

 

Sou só o que toma

o pequeno-almoço olhando —

esplendor da manhã.

 

Primeira manhã

de primavera; sinto-me

como qualquer outro.

 

A noite gelada;

o som do remo a cortar

a onda, — lágrimas.

 

Ao longo da estrada,

ninguém se vê caminhar;

cai a noite de outono.

 

o gosto solitário do orvalho seguido de o caminho estreito

 

Primavera

 

Abrindo de par em par

as portas do palácio:

A PRIMAVERA

 

Apesar da névoa

mesmo assim é belo

o Monte Fuji

 

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White Horse and Grooms – Yosa Buson

Não esqueças nunca

o gosto solitário

do orvalho

 

Brisa ligeira

A sombra da glicínia

estremece

 

Uma rã mergulha

no velho tanque…

O ruído da água

 

De que árvore em flor

não sei —

Mas que perfume

 

A cada sopro do vento

muda de folha

a borboleta no salgueiro

 

A uma papoila

deixa as asas a borboleta

como recordação

 

Flores de cerejeira no céu escuro

e entre elas a melancolia

quase a florir

 

Extingue-se o dia

mas não o canto

da cotovia

 

Lua cheia:

para repousar os olhos

uma nuvem de tempos a tempos

 

Flores queimadas pela geada

Os grãos caídos

semeiam a tristeza

 

Depressa se vai a primavera

Choram os pássaros e há lágrimas

nos olhos dos peixes

 

Verão

 

Preso na cascata

um instante:

o verão

 

Frescura:

os pés no muro

ao dormir a sesta

 

Com relutância

emerge e abelha

do coração da peónia

 

Visto à luz do sol

é apenas mais um insecto

o pirilampo

 

Narciso e biombo

um o outro ilumina

branco no branco

 

Silêncio:

as cigarras escutam

o canto entre as rochas

 

Sensação de vazio

Ao despedir-me colhi

uma espiga de trigo

 

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travelers on horseback on a mountain in spring – Yosa Buson

 

As cigarras cantam

sem saberem que é a morte

que as escuta

 

Ervas do estio

Eis o resta

do sonho dos guerreiros

 

No pôr do sol

entre as papoilas brancas

as faces curtidas dos pescadores

 

Outono

 

Outono:

velhos parecem até

os pássaros e as chuvas

 

Trevos roxos

ondulam sem deixarem cair

uma só gota de orvalho

 

Cai uma castanha…

Calam-se de súbito os insectos

entre as ervas

 

Crepúsculo:

as ervas parecem seguir

os rebanhos que recolhem

 

Vento de Outono —

até as pedras do Monte Assama

voam

 

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Yosa Buson

Ah este caminho

que já ninguém percorre

a não ser o crepúsculo

 

Admirável aquele

cuja vida é um contínuo

relâmpago

 

Na escuridão do mar

brancos

gritos de gaivotas

 

No outono nos separamos

como duas conchas

da amêijoa

 

Outono  —

empoleirado num ramo seco

um corvo

 

Inverno

 

Declínio  —

um dente acusa um grão de areia

nas algas secas

 

Intempérie  —

infiltra-se o vento

até na minha alma

 

Tão esguia a gata

Não da falta de cevada

mas do amor

 

Um vento glacial sopra

Os olhos dos gatos

pestanejam

 

As mãos no lume

… e na parede

a sombra do meu amigo

 

Primeira neve  —

basta um floco

para vergar a folha do junquilho

 

Kisagata  —

Seishi adormeceu à chuva

Húmidas mimosas

 

Se parados pelas nuvens

dois patos selvagens

Dizem-se adeus

 

Tendo adoecido em viagem

em sonhos vagueio agora

na planície deserta

 

O caminho estreito

 

Também esta cabana de colmo

se há-de transformar

em casa de bonecas

 

Que glória

as folhas verdes as folhas novas

sob a luz do sol

 

Nem o picanço

tocará esta ermida

suspensa entre as árvores de verão

 

Ficou plantado o arrozal

quando me despedi

do salgueiro

 

O berço da poesia

os cantos dos plantadores de arroz

no longínquo norte

 

Mãos que hoje plantam arroz

outrora ágeis desenhos

imprimiam como uma pedra

 

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Yosa Buson

Das cerejeiras em flor

ao pinheiro de dois troncos:

três meses

 

Criadoras de bichos da seda

as suas roupas

aroma de antiga inocência

 

Na frescura

me estendo

como no meu leito

 

Quietude:

as cigarras escutam

o canto das rochas

 

O cálido dia:

o rio Mogami

deita-o ao mar

 

Cabanas dos pescadores:

apanhando a frescura do entardecer

estendidos sobre as portas

 

O ninhos de «misagos»

sobre uma rocha no mar:

jurariam as ondas não lhes tocar

 

O Sétimo Mês

a noite do sexto dia

não me parece a de sempre

 

Penetro no aroma do arrozal

à minha direita

a cólera do mar

 

O sol arde

sem compaixão

Mas o vento é de Outono

 

Que nome delicado

O vento entre os pinheiros

os trevos os juncos

 

Se hei-de morrer no caminho

que seja

entre os campos de trevo

 

Hoje o orvalho

apagará o teu nome

do meu chapéu

 

Toda a noite

escutei

o vento de Outono na montanha

 

Yosa Buson  (1716, Osaka – 1783, Kyoto)

 

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cuckoo flying over new verdure – Yosa Buson

caídas as flores

da cerejeira, eis o templo —

através dos ramos.

 

As flores da colza —

com o sol  ocidente,

lua a oriente.

 

Com o vento de oeste,

juntam-se as folhas caídas

do lado de leste.

 

Tardinha de outono;

há alegria também

nesta solidão.

 

À brisa da tarde,

a água lambe e envolve

as pernas da garça.

 

Brilha um relâmpago!

O som das gotas de água caindo

por entre os bambus.

 

A noite afunda-se

e dome pelas aldeias;

o som da cascata.

 

Estendi a esteira

e sentei-me a contemplar

a ameixieira em flor.

 

A voz dos mosquitos —

sempre que cai uma flor

da madressilva.

 

Esplendor da tarde;

deve haver um amarelo

também a florir!

 

Azáleas florescem;

na aldeia perdida no monte

o arroz é branco.

 

Torna-se a raposa

um belo principezinho;

noite primavera.

 

Desoladamente,

o sol pôs-se nos rochedos

do seco paúl.

 

Vagarosos dias

passam. Que distantes fiam

as coisas passadas!

 

Lento vai o dia;

numa esquina de Kyôto

ouvem-se os ecos.

 

Masaoka Shiki (17 Setembro de 1867 – 19 de Setembro de 1902)

 

Na praia arenosa,

pegadas. É primavera —

longo vai o dia.

 

Passada a tormenta,

sol tardio brilha na árvore

onde a cigarra canta.

 

Nuvens ondeantes —

amontoadas ao sul,

barcos, brancas velas.

 

Perto das ruínas,

as aves a vaguear

por entre o hibisco.

 

Na curva da estrada,

já pode avistar-se o templo —

rústicos crisântemos.

 

Aqui e ali

um veado transparece

no meio dos arbustos.

 

Não há jardineiro —

o jardim em liberdade

e por aparar.

 

O sol da tardinha

trespassa a vegetação,

pousando na rede.

 

Na ilha do lago,

lá onde ninguém habita,

é densa a folhagem.

 

Kobayashi Issa ( 15 de Junho de 1763 – 5 de Janeiro de 1827)

 

masters
Matsuo Bashô; Yoza Buzon; Kobayashi Issa; Masaoka Shiki

Hasta mis pies

¿cuándo y cómo has llegado,

caracolillo? 

 

Por sí sola,

la cabeza se inclina,

Monte Kamiji.

 

Mi pueblo: todo

lo que me sale al paso

se vuelve zarza.

 

Cae bocarriba

la cigarra de otoño

y sigue cantando.

 

De no estar tú

demasiado enorme

sería el bosque.

 

Las flores han caído:

ahora nuestras mentes

están tranquilas.


 

 

 

 

 

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Poesia Haikai de Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer é admirado no Japão justamente pela beleza da sua poesia haikai. Num recente simpósio realizado em Quioto os estudiosos deste género poético não descartaram a possibilidade de o poeta sueco vir a influenciá-lo. No haikai japonês há uma dimensão espiritual sempre que o tema seja a Natureza, o que também se revela nos de Tomas Tranströmer. A sua “técnica de surpreender” no último verso é igualmente admirada. Como quando escreve: “Quando o preso se evadira / foi capturado / tinha os bolsos cheios de cogumelos” (de: A Prisão, Adition Edda, 1959).

Poesia Haikai

(de Tomas Tranströmer)20040526056

O sol junto ao horizonte
As nossas sombras são gigantes
Nao tarda, tudo serão sombras.

*

E a noite decorre
de leste para oeste 
à velocidade da lua.

*

Um par de libélulas
encaixadas uma na outra
esvoaçou por nós.

*IMG_20150720_181730 (1)

Os fios de alta tensão
no frágil reino do frio
para norte de toda a música.

*

O sol branco é um corredor
de fundo contra
as montanhas azuis da morte.

*

Temos de viver com
a relva miudinha
e o riso das caves.

*

 

As orquídeas roxas.
Petroleiros a deslizarem.
É lua cheia.

*

Uma fortaleza medieval,
uma cidade estrangeira, a esfinge fria,
arenas desertas.

*

As folhas a murmurarem:
um javali está a tocar órgão.
E os sinos repicaram.

*

A presença de Deus.
No túnel do canto dos pássaros
abre-se uma porta.

*

Carvalhos e a lua.
Luz e constelações silenciosas.
E o oceano gélido.

Os três primeiros Haikus foram retirados do livro 50 Poemas, uma edição da Relógio D’Água e tradução de Alexandre Pastor.

Os restantes são uma tradução baseada em versões inglesas de Robin Fulton e Patty Crane; há uma versão brasileira de Marta Manhães de Andrade.