Publicado em Deixe um comentário

O Amante de Lady Chatterley

(…) Acredito num mistério superior que não permite que os corações se apaguem. Se está na Escócia e eu nos Midlands e não a posso abraçar e agarrar, resta-me no entanto algo de si. A minha alma palpita docemente consigo na pequena chama de Pentecostes e é como a paz que se sente depois de fazer amor. Há uma chama que nasce quando se faz amor. Até as flores nascem do amor entre o sol e a terra, E tudo isto é um problema delicado que exige paciência e uma longa espera.
E assim gosto da minha castidade neste momento, por que é como a paz que sobrevém ao amor. Gosto de levar uma vida casta, como as goteiras gostam da água da chuva. Gosto da castidade, que é o momento de paz no nosso amor e que é uma chama branca, muito branca. E quando a primavera chegar, quando passarmos a viver juntos, então poderemos, ao fazer amor, tornar a pequena chama brilhante, amarela e brilhante. Agora é impossível. Agora temos de ser castos, e é bom ser casto, é como um rio de água fria na alma. Gosto da castidade que corre agora entre nós. É água fresca da chuva.
Como é possível desejar permanentemente as cansativas aventuras? Ser apenas Don Juan é terrível, não chega para conseguir extrair paz do amor, quando a pseudochama brilha, incapaz de ser casto de vez em quando, como quem se senta na margem de um rio. (…)

D. H. Lawrence, in O Amante de Lady Chatterley
Edição Relógio D’Água

https://www.flaneur.pt/produto/o-amante-de-lady-chatterley/

Pintura: Woman Drying Her Hair. Joseph DeCamp

Publicado em Deixe um comentário

Criança e Flor

Feliz o recém-nascido,
(De acordo com as melhores conjecturas queria referir
Como evolui no mundo a nossa Existência), abençoada a criança,
Acariciada nos braços da Mãe, adormecendo
Embalada no seio materno; ela, com a sua alma,
Bebe as emoções no olhar materno!
Para ela, na Presença única e amada, existe
Uma virtude que irradia e exalta
Os objectos através da mais vasta comunhão dos sentidos.
Não é uma exilada, perplexa e abatida;
Ao longo das suas veias de criança
Misturam-se a gravitação e os laços filiais
Da Natureza que a ligam ao Universo.
Aponta para uma flor ainda com a mão
Demasiado hesitante para a colher, mas para ela
Já é o amor, que, vindo da sua mais pura fonte terrestre,
Tornou bela esta flor; já as sombras
Da piedade que chegam de uma ternura interior
Ficam à sua volta sobre o que traz consigo
As cicatrizes informes da violência e do mal.
Forçosamente tal ser vivo existe,
Por muito frágil que seja, ao mesmo temo frágil e débil,
Ele é um ser deste universo cheio de vida:
O sentimento transmitiu-lhe uma força
Que, através das faculdades crescentes dos sentidos,
Como instrumentos do único e supremo Espírito,
Cria, sendo que cria e quem recebe,
Num trabalho que é a aliança com as obras
Que contempla, Tal é, verdadeiramente, o inicial
Espírito poético na nossa vida humana,
Que, devido à uniforme disciplina dos anos,
Em muitos se torna menor ou é destruído; em alguns,
Mesmo que se altere, por se desenvolver ou não,
Ele domina até à morte.

William Wordsworth, in O Prelúdio

O Prelúdio

Os livros do Arnaldo

Pintura de Albert Anker

Publicado em Deixe um comentário

Alexandre Andrade

Estou a ler um ensaio de Gérard Genette, intitulado Seuils, que se debruça sobre o paratexto, ou seja, os elementos do livro publicado que circundam, complementam e enquadram o texto propriamente dito: título, prefácio, notas de rodapé, índice, bibliografia, etc. Gosto do estilo de Genette, que consegue equilibrar humor, erudição e vontade genuína de partilhar conhecimento e pontos de vista, embora ocasionalmente se torne demasiado palavroso e coloquial para o meu gosto. Em ficção, decidi por fim lançar-me à aventura de encetar o primeiro volume de O Homem Sem Qualidades, de Musil. É uma altura da minha vida tão boa como qualquer outra para isso. Ainda é cedo para poder transmitir qualquer impressão. Para já, pouco mais se sabe do que isto: o homem sem qualidades chama-se Ulrich, mora numa vivenda e tem uma amante. Também tenho andado a ler, muito espaçadamente, a antologia completa dos contos de V.S. Pritchett, um calhamaço que exige uma certa preparação física para ser manuseado. Nos que já li, sobressai uma capacidade rara de retratar traços de carácter por meio de pequenos enredos aparentemente inócuos. Em poesia, estou a ler Azul e Vermelho, de Adriana Crespo, uma autora que tem vindo a construir uma obra singularíssima de beleza e inteligência, espalhada por alguns (demasiado raros) livros, inéditos e uma constelação de blogs. Seria bom que o reconhecimento mais amplo desta autora, que é inevitável, se situe num futuro muito próximo e não numa qualquer posteridade distante que lance sobre nós um olhar condoído por não termos sabido apreciar devidamente a excelência.

https://www.flaneur.pt/produto-etiqueta/alexandre-andrade/

https://www.flaneur.pt/produto-etiqueta/robert-musil/

https://www.flaneur.pt/produto/azul-vermelho/

 

Publicado em Deixe um comentário

No amor…

No amor entre um homem e uma mulher há sempre um momento em que esse amor atinge o seu zénite, em que não há nele nada de consciente, de racional nem de sensual. Esse momento foi para Nekhliúdov na noite da luminosa ressurreição de Cristo. Ao recordar agora Katiucha, de todas as situações em que a vira, esse momento superava todos os outros. A cabeça negra, lisa, brilhante, o vestido branco pregueado, que lhe moldava virginalmente o corpo esbelto e o peito pequeno, e aquele rubor, e aqueles ternos olhos negros brilhantes, um pouco tortos devido à noite sem dormir, e em todo o seu ser, havia duas linhas principais: a pureza virginal do amor não apenas por ele – isso ele sabia -, mas também de um amor por todos e por tudo, não apenas pelo que de bom existe no mundo – até por aquele mendigo com o qual ela trocou beijos.
Nekhliúdov sabia que havia nela esse amor, porque nessa noite e nessa manhã tinha consciência dele, e tinha consciência de que nesse amor se fundia com ela num único ser.
Ah, se tudo tivesse ficado pelo sentimento que houve nessa noite!

Lev Tolstoi, in Ressurreição

Ressurreição

Pintura de Riza-yi `Abbasi (Pérsia 1565–1635)

Publicado em Deixe um comentário

O Prelúdio

(…)

Eu era como aquele que se debruça de uma barca
A deslocar-se lentamente sobre o seio
De uma água serena, consolado-se
Com as descobertas que o seu olhar faz
Conforme desce ao fundo do abismo,
E vê tantos espectáculos belos – algas, peixes, flores,
Grutas, seixos, raízes e árvores, e imagina ainda mais,
Muitas vezes perplexo e não conseguindo separar
A sombra da realidade, os rochedos e o céu,
As montanhas e as nuvens, reflectidos na profundeza
Daquele curso límpido, de tudo o que ali vive
No seu verdadeiro lugar; agora a sua visão é atravessada
Pelo reflexo da sua própria imagem, por um raio de sol,
E movimentos ondulantes vindos não se sabe de onde,
Dificuldades que tornam a sua tarefa ainda mais atraente;
Tal é a agradável ocupação que há muito
Prosseguimos, inclinando-nos sobre o passado
Com igual sucesso; e raramente podem surgir
Formas mais belas ou mais nítidas que estas,
Para as quais a minha narrativa, indulgente amigo,
Vem chamar a tua atenção.

(…)

William Wordsworth, in O Prelúdio

O Prelúdio

Os livros do Arnaldo

Publicado em Deixe um comentário

Confabulações

O que me levou a escrever ao longo dos anos foi o pressentimento de que há alguma coisa que precisa de ser dita e que, se eu não a tentar dizer, há o risco de ela ficar por dizer. Imagino-me não tanto como um escritor consequente e profissional, mas mais como um homem para as emergências.
Depois de ter escrito algumas linhas, deixo que as palavras retornem à criatura da sua linguagem. E, lá, elas são instantaneamente reconhecidas e saudadas por um conjunto de outras palavras, com as quais têm afinidades de sentido ou de oposição, de metáfora ou de aliteração ou ritmo. Escuto as suas confabulações. Juntas, estão a contestar o uso que eu dei às palavras que escolhi. Estão a questionar os papéis que lhes atribuí.
Por isso, modifico as linhas, mudo uma ou duas palavras e submeto-as a nova apreciação. Começa outra confabulação.
E continuo assim até haver um murmúrio surdo de assentimento provisório. Então, prossigo para o parágrafo seguinte.
Começa outra confabulação…
Os outros podem classificar-me como quiserem enquanto escritor. Para mim próprio sou o filho da puta – e conseguem adivinhar quem é a puta, não conseguem?

John Berger, in Confabulações

Ilustração de Jean-François Martin

Confabulações

Publicado em Deixe um comentário

Furor e Mistério, René Char

Tinha onze ou doze anos, quando aquilo a que chamava o grandíssimo relâmpago se abateu sobre mim pela primeira vez; tudo o resto deixou de ter importância. O dia não ilumina, só existem a noite e a claridade, mas essa claridade vem da noite, é o grandíssimo relâmpago. Só cintila de tempos a tempos, um número restrito de vezes durante uma vida, mas em cada relâmpago vislumbramos algo mais do que aqueles que só vêem durante o dia. Mesmo que depois o relâmpago ainda torne mais obscura a obscuridade que lhe sucede.

René Char

Basta de Escavar

Basta de escavar, de dilapidar a nossa mais próxima parte.
O pior está em todos nós, caçador, no nosso flanco. Vós que aqui não sois mais do que uma pá levantada pelo tempo, voltai-vos sobre o meu amor, que soluça a meu lado, e despedaçai-nos, peço-vos, fazei-me morrer de uma vez por todas.

René Char, in Furor e Mistério

Um Pássaro…

Um pássaro canta sobre um fio
Essa vida simples, à flor da terra.
Com isso se alegra o nosso Inferno.

Depois o vento começa a sofrer
E as estrelas dão-se conta.

Ó loucas, por percorrerem
Uma tão profunda fatalidade!

René Char, in Furor e Mistério

 

Pintura: Reflexão, de Odilon Redon

Furor e Mistério

Publicado em Deixe um comentário

Poesia Haikai de Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer é admirado no Japão justamente pela beleza da sua poesia haikai. Num recente simpósio realizado em Quioto os estudiosos deste género poético não descartaram a possibilidade de o poeta sueco vir a influenciá-lo. No haikai japonês há uma dimensão espiritual sempre que o tema seja a Natureza, o que também se revela nos de Tomas Tranströmer. A sua “técnica de surpreender” no último verso é igualmente admirada. Como quando escreve: “Quando o preso se evadira / foi capturado / tinha os bolsos cheios de cogumelos” (de: A Prisão, Adition Edda, 1959).

Poesia Haikai

(de Tomas Tranströmer)20040526056

O sol junto ao horizonte
As nossas sombras são gigantes
Nao tarda, tudo serão sombras.

*

E a noite decorre
de leste para oeste 
à velocidade da lua.

*

Um par de libélulas
encaixadas uma na outra
esvoaçou por nós.

*IMG_20150720_181730 (1)

Os fios de alta tensão
no frágil reino do frio
para norte de toda a música.

*

O sol branco é um corredor
de fundo contra
as montanhas azuis da morte.

*

Temos de viver com
a relva miudinha
e o riso das caves.

*

 

As orquídeas roxas.
Petroleiros a deslizarem.
É lua cheia.

*

Uma fortaleza medieval,
uma cidade estrangeira, a esfinge fria,
arenas desertas.

*

As folhas a murmurarem:
um javali está a tocar órgão.
E os sinos repicaram.

*

A presença de Deus.
No túnel do canto dos pássaros
abre-se uma porta.

*

Carvalhos e a lua.
Luz e constelações silenciosas.
E o oceano gélido.

Os três primeiros Haikus foram retirados do livro 50 Poemas, uma edição da Relógio D’Água e tradução de Alexandre Pastor.

Os restantes são uma tradução baseada em versões inglesas de Robin Fulton e Patty Crane; há uma versão brasileira de Marta Manhães de Andrade.