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José Oliveira

Vida e Morte de Uma Sombra

“Olhai, não tenho rosto, o que exibo é a cara do instante”
Edmond Jabés

Sombra de ninguém exilada nos meus pulmões,
sombra antiga dos pulmões
de que mapa ou desvairado país foges?
Dói a claridade, dói a crosta inicial desta sílaba,
mas dói sobretudo a vasta ausência,
inclinada sobre o meu nome.

Dói alguém no centro da idade,
dói a ignorância, a luz que falta, tudo o que treme,
o meu nome antes da pobreza,
doem as clareiras que os deuses abriram no meu ventre,
o salitre das crenças,
espécie de tristeza no canto dos relâmpagos,
ofegante respiração do Inverno.

Mas a sombra é um lugar corajoso
onde os dias terminam
atrás da luz ou atrás de mim
enquanto durmo por pudor ou tédio.
Tudo está intacto enquanto envelheço –
a humidade, a memória, rara água nas mãos –
tudo é difícil dentro da sombra
no silêncio tardio das orações, no frio,
na doçura negra.

Cinza, pólen, poeira: o que resta do mundo dos vivos.

José Oliveira, in Livro de Obra

Pintura: James Abbot McNeill Whistler, Arrangement in Grey and Black No.1 (1871), conhecido como Whistler’s Mother, Musée d’Orsay, Paris

Livro de Obra

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