Este é um livro que aventureiramente escapa às malhas apertadas do «género», palavra tomada por Clarice Lispector em múltiplos sentidos. Publicado pela primeira vez em 1974, reúne um conjunto de narrativas tragicómicas, iniciáticas, catastrofistas, de audácia absoluta e ácido humor, entre a pulsão animalesca e a consciência cortante. A intimidade erótica é escrutinada sem pudor, tal como o envelhecimento do corpo é colocado sob o holofote de uma escrita inconfundível.
Há uma «velha maluca», um cortejo de «malditos», um «arauto mudo», um «anão corcunda», uma rapariga «nervosa», figuras improváveis cuja «mistura andrógina» – delirante e enfeitiçante – abala a «confiança no mundo» e provoca um «sofrimento angélico». Ao eletrizante imaginário clariceano importam pouco as fronteiras que separam a verdade da invenção, ou as diferenças entre a arquitetura de um conto, a engrenagem de uma crónica ou o solavanco de um fragmento. Há um fluxo poético que funciona como véu da longa noite da literatura, «possibilidade excepcional» de imortalidade.