"Dos bons costumes pela manhã
Uma alma festiva é de uma grande salubridade: o bebedor com bons modos sabe recordar-se disso. Um vinho extraordinário, bebido para matar o bicho, restaura as forças àqueles que praticam assiduamente o noctambulismo; é por isso que Hipócrates evoca o vinho inebriante como algo que desperta a alegria, o vinho carrascão como algo que facilita o vómito, o vinho que embrutece como algo adequado às naturezas belicosas, e o clarete como algo que confere modos moderados. Ouçam! Irmãos de nariz avermelhado! Retenham isto na memória: nunca é demasiado cedo para beber. É por isso que convém, desde o romper da aurora, enxaguarem o focinho, humedecerem os pulmões, lavarem as tripas: desse modo, ficarão elegantes e despertos; não sou eu que o digo.
O vinho dar-vos-á, durante todo o dia, movimentos intestinais contidos e seguros, que o sábio Epistemão qualifica de papais, dado se-rem, por natureza, infalíveis. Quem, pelo contrá-rio, desde manhã, beber água ou qualquer líquido semelhante ficará mole e de rabo descaído até às últimas horas vespertinas; e deitar-se-á com suores e terá pesadelos. E, pelo contrário, quem beber vinho terá a consciência tranquila e o espírito apaziguado até ao crepúsculo; e assim será dia após dia, reiteradamente."
Tratado do Bom Uso do Vinho precedido de A Sagrada Garrafa
François Rabelais
11.00€