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Poesia Haikai de Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer é admirado no Japão justamente pela beleza da sua poesia haikai. Num recente simpósio realizado em Quioto os estudiosos deste género poético não descartaram a possibilidade de o poeta sueco vir a influenciá-lo. No haikai japonês há uma dimensão espiritual sempre que o tema seja a Natureza, o que também se revela nos de Tomas Tranströmer. A sua “técnica de surpreender” no último verso é igualmente admirada. Como quando escreve: “Quando o preso se evadira / foi capturado / tinha os bolsos cheios de cogumelos” (de: A Prisão, Adition Edda, 1959).

Poesia Haikai

(de Tomas Tranströmer)20040526056

O sol junto ao horizonte
As nossas sombras são gigantes
Nao tarda, tudo serão sombras.

*

E a noite decorre
de leste para oeste 
à velocidade da lua.

*

Um par de libélulas
encaixadas uma na outra
esvoaçou por nós.

*IMG_20150720_181730 (1)

Os fios de alta tensão
no frágil reino do frio
para norte de toda a música.

*

O sol branco é um corredor
de fundo contra
as montanhas azuis da morte.

*

Temos de viver com
a relva miudinha
e o riso das caves.

*

 

As orquídeas roxas.
Petroleiros a deslizarem.
É lua cheia.

*

Uma fortaleza medieval,
uma cidade estrangeira, a esfinge fria,
arenas desertas.

*

As folhas a murmurarem:
um javali está a tocar órgão.
E os sinos repicaram.

*

A presença de Deus.
No túnel do canto dos pássaros
abre-se uma porta.

*

Carvalhos e a lua.
Luz e constelações silenciosas.
E o oceano gélido.

Os três primeiros Haikus foram retirados do livro 50 Poemas, uma edição da Relógio D’Água e tradução de Alexandre Pastor.

Os restantes são uma tradução baseada em versões inglesas de Robin Fulton e Patty Crane; há uma versão brasileira de Marta Manhães de Andrade.

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Flâneur Arnaldo, “Como Se Desenha Uma Casa”?

Da casa onde vivi a minha infância recordo o fascínio que sentia cada vez que me encontrava com uma das inúmeras portas que escondiam falsos. Cinco velhos andares erguidos no centro do Porto, e entre eles, por baixo de escadas, lá estavam, sombrios, misteriosos, enormes aos olhos de uma criança. Depósito de objectos, lembranças, memórias esquecidas, empilhadas em caixas cheias de coisas vazias, anacrónicas, que se perderam, assim como nós, em algum espaço do tempo.

Quando leio Como Se Desenha Uma Casa, de Manuel António Pina, é como se voltasse a esses esconderijos, a essa parte encoberta do nosso ser. É o véu das recordações que se desprende, e o sempre desejado regresso de que nos fala Homero. Então, sinto os passos das pessoas que amamos que chegam, os passos das pessoas que amamos que partem, nas escadas, nos corredores, as portas que batem… é isso, a nostalgia, o remorso, essa mais-que-coisa que nos fala o poeta…

Manuel António Pina habita as palavras e as palavras habitam-no, por elas se tornou poema. A sua escrita animista, coerente, bela e reveladora tem o dom de transformar um perfil, um género ou número numa pessoa, conferindo-lhe verdadeira dimensão humana. E então o taxista, a peixeira, o professor, deixam de ser um género, uma profissão ou simplesmente mais um, para recuperar a importância que têm de facto, para saírem da “mudez do mundo”. Numa sociedade cada vez mais ambígua, onde as palavras perdem significado e a linguagem vive débil, precisamos de Todas as Palavras, para que, cavando no espírito, as possamos cultivar e lá cresçam, e fiquem a render como se de uma conta a prazo se tratasse.

Depois de desenhada a casa…

Pego na tesoura, e aspirando ao mesmo amor com que Pina recorta as pessoas, humanas e não humanas, também eu recortaria a minha velha casa. Primeiro as paredes, elas que tal como as margens de um rio, serviram de refúgio para que aí pudesse soçobrar, amodorrar, fazendo fé que na imobilidade das coisas não morresse nunca o lugar onde fui feliz.

“Nada no mundo aberto e andarilho poderá substituir o espaço fechado da nossa infância, onde algo aconteceu que nos tornou diferentes e que ainda perdura e que podemos resgatar quando recordarmos aquele lugar que foi a nossa casa.”                                                                                                                                                                            Julio Ramón Ribeyro

A eles:

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Dentro está a Ana e a Margarida

Arnaldo Vila Pouca, 37 anos, livreiro de férias e desempregado a dias, que pretende ser Flâneur a tempo inteiro.

Local da fotografia: Urban Cicle Café, debaixo de três rodas e com amigos por perto.

O livro do Arnaldo pode ser comprado aqui: Flâneur

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Mahmud Darwich, o poeta da Palestina

Mahmud Darwich nasceu em 1942 em Birwa, na Galileia, a poucos quilómetros de São João d’ Acre. Em 1948, as tropas israelitas obrigam-no a partir com a família para o exílio, do qual regressa clandestinamente, um ano depois. Cinco vezes preso, entre 1961 e 1967, refugia-se, em 1970, no Cairo e, em 1972, em Beirute, que abandona, entretanto, em 1982, aquando da invasão do país pelas forças judaicas. Autor de uma extensa e complexa obra, atravessada ora por um tom revolucionário e patriótico, ora por um sopro épico e lírico, escreveu também diversas obras em prosa, onde estão reunidos os numerosos artigos publicados na imprensa, designadamente na revista literária al-Karmil, que fundou em Beirute e dirigiu a partir de Ramallah. Considerado um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos, Darwish, autor da Declaração de Independência da Palestina, escrita em 1988, parte para o definitivo exílio em 2008, com 66 anos.

“A minha imagem pública permanece, entretanto, mais forte do que a minha inquietação. Eu sou o que se designa “o poeta da Palestina” e requer-se de mim que fixe o meu lugar na língua, que proteja a minha realidade do mito e domine uma e outra, para ser ao mesmo tempo parte da História e testemunha do que ela me fez sofrer. É por isso que o meu direito a um futuro implica revolta contra o presente e defesa da legitimidade da minha existência no passado. A minha poesia está assim transformada em prova de existência ou de nada. Eu era, quando comecei a escrever, habitado pela obsessão de dizer a minha perda, os meus sentidos, os limites impostos à minha existência, breve, o meu eu no seu meio e na sua geografia particulares. Não prestava verdadeiramente atenção ao facto de que o meu ser recortava um ser colectivo. Queria exprimir-me, sonhando apenas transformar-me a mim mesmo. Mas que podia eu contra o facto de a minha história individual, a do grande desenraizamento do meu lugar, se confundir com a dum povo? Os meus leitores encontraram assim, naturalmente, na minha voz pessoal a sua voz pessoal e colectiva. Mas, quando cantei na prisão as saudades do café e do pão de minha mãe, eu não aspirava a ultrapassar as fronteiras do meu espaço familiar. E, quando cantei o meu exílio, as misérias da existência e a minha sede de liberdade, não queria fazer “poesia da resistência”, como então afirmou a crítica árabe”.

“Quando penso nesses anos, revejo a formidável capacidade da poesia em se expandir, quando ela não procura nem solidão nem grande voga e nem uma nem outra são critérios válidos para julgar a sua beleza. Mas sei também, quando penso nos que denigre a “poesia política”, que, pior do que esta, é o excesso de desprezo pelo político, a surdez perante as questões colocadas pela realidade e pela História, e a recusa em particular implicitamente na empresa da esperança.”

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“A origem da poesia é sem dúvida uma só: a identidade do homem, desde o passado do seu exílio até ao seu presente exilado.”

“Que significa o facto de eu dizer que a minha poesia vem dum país no qual a relação entre o tempo e o lugar se rompeu, duma pátria em que as crianças se transformaram em fantasmas? É só uma maneira de dizer as dificuldades da modernidade árabe em marcha, da tribo cujas tendas se volatilizaram em direcção à cidade que ainda não nasceu. A obscuridade não é o objectivo da poesia. Ela nasce, porém, da tensão entre o movimento do poema e o pensamento que o poema põe em movimento, da tensão entre o seu estado de prosa e o seu estado de ritmo. E essa parte obscura, comparável às evocações das sombras, é uma das formas do combate entre a língua poética e a realidade que a poesia, na busca da sua essência, já não se contenta em descrever. Talvez essa parte obscura seja precisamente o espaço aberto diante do leitor que, liberto duma mensagem definitiva, dotado da capacidade de ler e interpretar, possa então dar ao poema uma segunda vida.”

“Raros são os poetas que nascem poeticamente duma só vez. Pela minha parte, nasci gradualmente e por contracções espaçadas e continuo a aprender a marcha difícil no longo caminho do poema que ainda não escrevi.”

Dezembro de 1999

Mahmud Darwich

As citações apresentadas foram extraídas do prefácio, da autoria de Mahmud Darwich, da edição portuguesa da Campo das Letras de “O Jardim Adormecido e outros poemas”, com selecção e tradução de Albano Martins.

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Para fazer o retrato de um pássaro

Para fazer o retrato de um pássaro

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

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Poema: Jacques Prévert

Livro: Faktoria K de Livros